30.8.06

Cuidado.

Você acorda, abre a janela e vê, lá longe, o sol nascendo.
Simples, não?
Nem tanto para um concurseiro, pessoa física que deve ter o juridiquês na ponta da língua.

O Sol é imóvel. Isso é cláusula pétrea. Ao sol não é concedido o direito ao Habbeas Corpus. Já a Terra pode ir e vir, sendo que tal direito de movimentação está restrito à sua órbita. Qualquer tentativa de mudar tal órbita será considerada inconstitucional em qualquer instância. Se a Terra mudar seu percurso, pode ter certeza que é golpe pois não há lei complementar ou ordinária capaz de mudar tal instituto. Porém, não há qualquer menção legal quanto a Terra girar sobre seu próprio eixo. Se a lei nada fala, não é proibido. Assim, ela, a Terra, girou, girou e girou por milênios, fazendo desse costume um direito adquirido. E é justamente esta prerrogativa, a liberdade de rodar em torno de si, que gera a equivocada idéia de natalidade solar.
O sol não nasce.
A Terra é que gira.

Um concurseiro acorda, abre a janela, aperta a tecla SAP Legislativa e diz:
-A Terra, fazendo valer seus direitos de rotação sobre o próprio eixo, garante aos olhos de todos os cidadãos que vivem neste hemisfério, a possibilidade de ver o sol.

O problema é que a tecla SAP fica do ladinho do botão FODA-SE.

29.8.06

O sonho não começou.

Tenho uma amiga que também resolveu mudar os rumos de sua vida e na guinada, viu-se obrigada a voltar aos estudos e as carteiras das salas de aula. Encontrei-a um dia desses, no chá de bebê da futura Helena e, em meio uma conversa estudantil, ela me perguntou se eu já estava sonhando com estudos.
-Não. Ao menos ainda não.
Ela riu e me falou sobre alguns que andava tendo. Durante suas noites de sono, as matérias que estuda freqüentemente invadem seus sonhos das mais curiosas e, creiam, ilustrativas formas.

Com o tanto de leis que ando estudando, se com elas sonhasse, acordaria preso.

24.8.06

Futuros Funcionários.

Eu já o tinha visto de passagem. Mas foi no começo de uma aula, quando ele se sentou ao meu lado, que a ficha caiu. Ele falou duas palavras, riu, jogou a pança pra frente, ajeitou os fios de cabelo que antecedem sua careca, inclinou o queixo pra frente e se concentrou na aula. Foi o suficiente para que eu, incrédulo, me desse conta de quem estava ao meu lado: Homer Simpson.

A mesma voz, a mesma pança, o mesmo riso, o mesmo cabelo, a mesma pose. Só não estava de camisa branca. A aula perdeu a importância. Como me concentrar na legislação penal se ao meu lado estava o cara que há anos, freqüenta meu televisor? Aguardei ansiosamente o intervalo e quando ele chegou, sacramentado como uma alforria, puxei conversa.

Homer é divorciado, curte Rock & Roll, prefere o Sammy Hagar ao David Lee Roth, tem uma filha, uma namorada e centenas de DVDs das mais variadas bandas tocando nos mais inusitados palcos. Não gosta de futebol, vota no Serra, toma café com muito açúcar, viaja nos solos do Satriani e presta concurso há três anos. Tira seu sustento do pequeno negócio que montou com sua namorada, comercializando cópias piratas que faz de seus próprios DVDs. Isso na parte da tarde, quando ele não tem aula. Durante as manhãs, quem vende o seu peixe, ali mesmo no centrão de Sampa, é sua sócia-namorada.

No momento, a menina de seus olhos é o concurso do ISS. Homer deseja ser fiscal da prefeitura.

22.8.06

Teus risonhos lindos campos têm mais flores.

Ontem reencontrei no metrô, quando voltava da aula, a garota dos peitos que tem o poder de parar qualquer aula.
Notem: eu disse qualquer aula e, creiam, não há um milímetro de exagero em minhas palavras.
Conversávamos sobre concursos quando, na estação Paraíso, vagou uma cadeira. Ágil, ela e seus peitos se sentaram rapidamente, não dando a menor chance para uma garota magrinha que também esperava ansiosamente um lugar para encostar seu corpo cansado. Eu permaneci em pé. Ela pôs os livros sobre as pernas e a conversa prosseguiu. Dali de cima, confesso que suas considerações sobre dificuldades da última prova para Fiscal do Trabalho não tinham mais a menor importância. Tentava desviar os olhos de seu decote numa vã tentativa de ser cavalheiro ou, no mínimo, menos calhorda. Cheguei a ver a magrinha sentando-se num banco cinza reservado a idosos, gestantes e deficientes. Tentei ler os cartazes publicitários e cheguei a olhar o mapinha com as linhas do metrô, em busca de uma estação que não conhecesse. Simulei uma limpada nos óculos e inventei um cisco em meus olhos. Não adiantou. Antes que o trem parasse na Vila Mariana, eles, ansiosos e saltitantes como duas criancas que chegavam ao Hoppi Hari e avistavam todo o esplendor de sua montanha russa, voltaram ao decote fatal. Ela continuava falando e eu ali, evitando a tentação de olhar descaradamente seu patrimônio, isento de tributações. Senti-me uma espécie de Zé Rainha ou Stédile bem em frente um baita latifúndio, protegido apenas por uma inofensiva cerquinha branca rendanda de contos da carochinha.
Ela percebeu o perigo da invasão, mas nada fez. Continuou falando sobre o concurso pretérito, absolutamente segura, moderna, madura, senhora de si, de seus peitos e de seus direitos. Ela sabia que estava amparada pela lei.

Afinal, um latifúndio desses não pode ser improdutivo.

17.8.06

Sem título.

Explicando uma das formas de extinção de dívidas do contribuinte frente o Estado, Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo-Né cita mais um instituto:
-Remissão.
E, para exemplificar tal instituto, pergunta a classe:
-Quem aqui é católico?
Poucos levantam a mão. Ele insiste:
-Católicos praticantes que freqüentam a igreja e conhecem orações.
Apavorados pela possibilidade do falso testemunho, os então católicos desaparecem. As mãos levantadas com fé e orgulho cristão, abaixam-se como num ordenamento divino.
Ele cita uma oração na qual está presente a expressão “remissão de seus pecados e ressuscitação da carne”. Na seqüência, pergunta se alguém sabe o que significa remissão. A resposta é unânime, forte, absoluta como um coro na Basílica de Aparecida em dia de Nossa Senhora:
-Perdão!

Rezar ninguém sabe direito como faz. Mas o perdão, todo mundo conhece cada um de seus sinônimos.

16.8.06

Dúvida.

Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo-Né é avassalador. Em questão de minutos, ele passa dezenas e dezenas de páginas de Códigos, Constituições e suas leis ordinárias, complementares e seja lá mais qual espécie normativa que um legislador pode imaginar.
Na aula de Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo-Né, sinto-me embaixo de uma espécie de caminhão de cimento. Estou sentado e ele vem, faz a balisa, encosta a minha frente e despeja toneladas de conhecimento jurídico em minha cabeça de poucos neurônios.
Hoje, não foi diferente. Mais e mais matéria sobre tributação, socada impiedosamente em meu modesto cérebro.
Não é fácil seguir seu raciocínio, permanecer sempre junto ao seu pensamento. Mas Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo-Né é indulgente e sabe que todo aquele seu conhecimento não surgiu da noite para o dia. Ele sabe que ali, a maioria vai demorar muito para chegar perto de todo o seu saber. Isso, se chegar perto.
Em meio a tudo isso uma dúvida me consome. Mordo a caneta, viro-me na carteira, dou uma risada de uma colocação estapafúrdia do aluno Julga-Saber-Absolutamente-Tudo. Mas não pergunto. Engulo a dúvida atroz e com ela, apertando meu coração, volto pra casa.

Ligo a TV, ligo o rádio, abro os jornais. Nada.

Eu preciso saber se o Ricardo Oliveira joga hoje. E pro inferno todos os tributos do planeta!

10.8.06

Tributação.

Na aula do professor Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo-Né, há o aluno Julga-Saber-Absolutamente-Tudo. O pequeno gafanhoto não perde uma única oportunidade de interromper a aula com suas observações jurídicas ou respostas seguras a qualquer questionamento do professor.
Se acerta? Se erra?
Pouco importa.
Para o caro colega concurseiro, o importante é participar.
E graças a este espírito esportivo, professor Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo-Né é interrompido em meio uma explicação na qual diferenciava imposto de contribuições e taxas:
- A taxa de incêndio é o que?

Taxa de incêndio?
Na hora imaginei-me em meio ao fogo infernal, tentando salvar minha vida entre chamas e escombros chamuscados. Imaginei ainda o caminhão de bombeiros chegando e nada fazendo. Lá estavam os bravos membros da corporação de braços cruzados, assistindo de camarote aquele espetáculo pirográfico.
-Me ajudem?, eu gritaria.
-Não podemos, responderia calmamente o comandante. Você está atrasado com a taxa de incêndio.

Não sei se o Julga-Saber-Absolutamente-Tudo está preparado para prestar concursos. Mas certamente, ele está prontinho pra ser prefeito.

9.8.06

Sala Cheia.


Hoje é dia de prova.
Prova daquelas: Auditor Fiscal da Receita Federal.
Já não penso em outra coisa, só na primeira etapa desse concurso.
Pego minha camisa da sorte e, nervoso, não me lembro de uma única linha lida e estudada nos últimos meses.
Frio na barriga. Bato as mãos com força, procurando me livrar da imensa ansiedade que me domina.
Quanto tempo ainda terei que esperar?
Um pensamento ruim passa pela minha cabeça. Bato três vezes na madeira pra afastar o mal olhado.
Bato a quarta, afinal, quatro é melhor que três.
Tô pronto.
E gaúcho nenhum vai tirar a minha vaga.

3.8.06

Impressões.

Todas as segundas-feiras bato uma bola com a rapaziada. Sou um craque, modéstia a parte. Na última peleja, machuquei o pulso em dois tombos seguidos, fazendo com que eu tenha que andar com uma atadura um volta do braço. Digo isso por que ontem de manhã, antes de entrar na aula que não tive, tomei um café e comi um enroladinho de presunto e queijo no botequim que sempre o fazia quando tinha aulas no primeiro semestre. Todos os dias, dez pras oito, lá estava eu. Ontem, não foi diferente:
-Um espresso e um enroladinho.
Colega, a simpática pernambucana que sempre me atendeu e já sabia decor o que eu queria, não só me reconheceu ontem como me perguntou como andavam as coisas:
-Bem Colega, tudo beleza.
-Tu tava de férias, é? Andou sumido.
-Nada... quem me dera, Colega, quem me dera. Eu estava resolvendo uns problemas na minha terra.
Instintivamente ela olhou meu pulso enfaixado. Sorriu meio desconfiada e trouxe-me o café quando o enroladinho já estava pela metade. Minutos depois, quando eu me preparava para ir a aula, flagrei-a me olhando, como quem tenta adivinhar quais problemas eu estaria resolvendo. Que querelas teria esse cara que some por meses e volta com o braço enfaixado?

Despedi-me tentando fazer cara de mal. Creio que cuspi de lado e dei um leve soco no balcão. Resmunguei algo para o caixa enquanto esperava o troco e me mandei, soltando uma despedida fatal:
-É nóis, Colega.

É bem mais legal passar por um malvado encrenqueiro do que um doce bailarino.

2.8.06

Bateu o sinal.

Hoje volto às aulas para assistir Direito Tributário. Quando menino, a volta as aulas era sempre bacana. Rever coleguinhas, fazer a redação das férias, ouvir novas histórias da rapaziada, inaugurar material novo, deixar tudo organizadinho, letra redondinha, tudo com muito esmero. Claro que tal euforia não durava mais que uma ou duas aulas e tudo voltava aos garranchos e visitas à diretoria. Mas eram bons tempos.

Bons tempos em que eu sonhava em ser Ozzy Osbourne, jogador de futebol, engenheiro, Ozzy Osbourne, jogador de futebol, escritor, fazendeiro, piloto de avião, Ozzy Osbourne, jogador de futebol, viajante, fotógrafo, super herói, agente secreto, Ozzy Osbourne, jogador de futebol, caminhoneiro, piloto de fórmula um, inventor, cientista, Ozzy Osbourne, jogador de futebol, jornalista, publicitário, professor, ginecologista, Ozzy Osbourne e jogador de futebol.

Nunca sonhei ser funcionário público. Nunca cheguei na rua, depois de ter feito apressadamente minha tarefa, e falei para meus amiguinhos:
-Ok, ok. Você é o Batman, você o Homem Aranha, você é o Zico, você é o James Bond, você é o Careca. Eu sou um fiscal do governo e vou autuar todos vocês, seus sonegadores dos infernos!

Agora, enquanto você lê este fragmento provavelmente eu estarei aprendendo coisas que nunca imaginei existirem sobre tributos, impostos e esses troços que a gente sempre paga, mas nunca sabe direito pra que. Meu material não é novo, meu caderno está todo amassado, não tenho saudades de meus amiguinhos e meus professores não são mais como os de minha infância.

E hoje, quando der o intervalo, eu e todos os meus amiguinhos trocaremos idéias sobre concursos que estão por vir. Certamente, ninguém vai falar em ser super-herói, jogador de futebol, empresário ou astro do rock.

Eu gostava mais dos recreios.