16.7.07

Buenas e me espalho.

Nada pode ser pior para quem vive em Sampa do que começar a semana com chuva. Com a água que tem cada vez menos escoamento em nosso concreto infinito, o trânsito, que parece ser denso como o Tietê, torna as distâncias oceânicas.
Não que pra mim as condições climáticas façam lá muita diferença. Meu deslocamento em Sampa vem se resumindo a um arrastar preguiçoso de pés do quarto pra sala, da sala pra cozinha e de lá, pego a primeira porta à esquerda, faço o retorno no banheiro e vo-a-lá: cá estou no quarto novamente. Mas nem sempre foi assim e quando meu mundo era o mundinho, vivi várias segundonas como a que desponta no céu acinzentado de hoje. E pra você que chegou agora no trabalho depois de horas no trânsito, não fique puto, injuriada ou de cara amarrada. Pense que há muitas pessoas que estão em uma situação pior que a sua. Gente que não tem a sorte de viver no mesmo lugar que você, que não teve suas oportunidades, que não aproveitou as chances que a vida lhe deu. Gente que tem muitos motivos pra não se sentir bem. Pra se sentir vencido.

Hoje, antes de reclamar da segunda de dilúvio que vivemos na Paulicéia Desvairada de todos nós, pense em quem não tem motivos pra sorrir.
Pense nos argentinos, por exemplo.


E tenha uma segunda esplendorosa!

5.7.07

CF, art. 12.

Tenho um amigo que separa as gerações em duas: a que viu a Copa de 1982 e a das pessoas que não tiveram esta sorte. Eu vi aquele campeonato e por isso, neste 5 de julho, vivo uma data inesquecível: hoje faz 25 anos que a seleção brasileira perdeu a Copa da Espanha num jogo memorável em Sarriá, para o escrete italiano.

A minha geração tinha uma seleção brasileira pra torcer. A gente corria atrás da bola sonhando em jogar no time do coração, fosse ele tricolor, alviverde, negro ou rubro. Minha geração viu o Zico tabelar com o Sócrates, o Éder bombardear zagas adversárias, o Oscar esbanjar categoria na defesa, o Chulapa furar redes com suas bicudas. Minha geração sabe que antes de falar groselhas ao lado do Galvão, o Falcão foi um baita meio campo.

Não pensem que sou um saudosista absoluto. Tenho saudades e vivo minhas nostalgias, mas nada que me faria entrar na máquina do tempo, virar para Martin McFly e dizer:
-Toca pro passado, queridão.

Sem essa.

O que o passado poderia ter me dado, já deu. Trago no peito a alegria das comemorações de Serginho Chulapa, busco sempre as saídas criativas do Careca, trato as pessoas da mesma forma com que Falcão tocava na bola e com a elegância sincera de um passe de calcanhar do Doutor Sócrates. Os que não gosto, boto pra fora de minha vida com a segurança e determinação com que o Oscar defendia a grande área das investidas inimigas. Mas se precisar dar bicuda, dou sem dó. Também não me esqueço das lições de Mestre Telê, com quem aprendi que ser brasileiro é viver lutando contra a corja que nos assola e os maus exemplos que corrompem nossa alma. A vitória fatal não é fácil tampouco rápida, mas é avassaladora. A vitória incontestável deve ser bela, sublime, incorruptível. Jogar feio é pra qualquer um. Ganhar assim, na sacanagem, é mais fácil mas também é mais sem graça, é meio mixuruca.

Se é pra ganhar, vamos ganhar na bola. Foi assim que minha geração aprendeu. Agora me diz: quem perdeu o jogo?

Eu sei. O que me deixa apreensivo é a resposta que a geração de Ronaldinhos pode ter na ponta da língua.