No Viaduto do Chá eu via uma apresentação indígena que acontecia lá embaixo, no Vale do Anhangabaú. Eram pouco mais de 9 de uma manhã esplendorosa de domingo. Além de mim, haviam mais algumas dezenas de cara-pálidas acompanhando o vai e vem, agacha e levanta, “u-u-u” e”tum-tum-tum” daquela tribo que tentava contar um pouco de sua história. Achei aquilo tudo bem triste e comecei a pensar na desgraça indígena e em sua aniquilação cultural. Aquele palco, aquela apresentação me soou como uma esmola antropológica que, no final das contas, nada...
-Ah bicho, pára com isso! Desencosta desse parapeito, tira a mão do queixo, desfaz essa cara de conteúdo e abre uma cerveja!
Então tá. Pedi pro sociólogo chato que começava a se manifestar em meu peito ir dar uma olhada em como estava a Praça da Sé depois dos Racionais e passei a ver a questão sobre um outro ponto de vista. Foi quando viajei no Chá.
Imaginei o que seria aquilo tudo há uns 500 anos, com o rio Anhangabaú cortando aquele verde vale. Vi que uns índios cantavam e dançavam na margem direita do rio sem perceberem que, em umas dezenas de canoas, outra tribo se aproximava furtivamente com seus arcos, flechas e lanças. Antes da briga começar, interrompi a viagem quando dois Pterodátilos passaram dando um rasante sobre o campo de batalha e lá no fundo, um vulcão entrava em erupção.
Era muito passado pras 9 da manhã.
Aquela regressão me deixou meio zonzo e, assim que os prédios voltaram, eu me mandei. O que passou, passou, não é isso? Vamos nessa, andando pra frente, olhando pro lado, com fé no futuro e as convicções firmes e fincadas no presente. O futuro se constrói agora e naquele momento eu sabia o que queria, sabia do que precisava pra fazer minha vida seguir e a alegria permanecer em meu peito. Minhas certezas eram fortes e tão claras quanto o dia que se iniciava: eu precisava tomar uma água e descolar um óculos escuro.
Fui encontrá-los alguns minutos no futuro, lá na Rua Direita, em meio uma tecneira nervosa que me engendrei rapidamente com ares de um Fred Aistare cibernético. Ganhei um óculos, comprei uma água e passei mais um bom tempo inventando coreografias absurdas, sendo assessorado pela bela doida dona dos óculos.
O futuro nos reserva cada uma, né não?
Cheguei em casa na hora do almoço. Comi um lanche, assisti um pedaço do Didi Mocó, tomei mais água, passei os olhos sobre o Código Civil que estava no banheiro sem nem pensar em abri-lo àquela hora e me estiquei na cama com duas certezas fatais: uma é que a Virada Cultural era passado, que o futuro era de estudo e que o melhor de todas as festas, em qualquer tempo, são os amigos.
E, se forem os meus, é um espetáculo pra se assistir de camarote, no Teatro Municipal, depois de uma noite inteirinha se divertindo num puteiro.