29.3.07

Se for pro gol me chama que eu vou.

O Romário vai fazer mil gols e tem gente achando ruim. Pior: tem brasileiro achando isso o fim da picada. Foi o que escutei de um concurseiro de camisa do Santos, no intervalo da aula de Tributário:
-Não agüento mais esse papo de mil gols do Romário.
Não entendi como um cara que gosta de futebol quer mudar de assunto. Mil gols, bicho, é gol pra cacete. Um cara que faz mil gols é um cara extraordinário.
É o cara.
-Mas a Fifa não reconhece todos os gols dele.
Ah, a Fifa. Lá vem essa porcaria de instituição menosprezar nossos feitos. Disse pro alvinegro praiano que a gente não deveria dar muita bola para o que diz um órgão que só tem olhos e cuidados para os europeus de cintura dura. Encarei o santista com uma certa ironia antes de lançar mão de minha poderosa base argumentativa:
-Caguei pra Fifa, bicho.
E é. Pô, como diz um amigo, cientista, filósofo e ateu praticante: se a Fifa não reconhece todos os gols do Baixinho, pior pra ela.

A aula estava prestes a recomeçar e a discussão longe de acabar. Ela correu pelo pátio, subiu as escadas, entrou na sala junto da gente, só parando quando fomos nos sentar em nossas respectivas carteiras. E o sujeito, que já julgo ser um desses vira latas Rodriguianos, batendo o pé contra o Romário.

Eu não entendo, juro que não entendo.
Se ele fez mil gols ou não, que se dane. E daí se ele fez 950? 800? Que mania de exigir o preto no branco onde as cores são fundamentais. Pedir que tudo seja concreto num campo onde a o sonho e os pontos dados nos contos são o que de fato importa. Se pra todo lance a gente exigir um tira-teima, o futebol vai ficar um saco.
No mais, vai exigir as verdades absolutas de seu deputado, ô viúva do Pelé!

Fiquei meio puto, confesso, e cheguei a pensar em desejar ao caiçara que prestasse mil concursos antes de entrar, só pra ficar esperto. Chacoalhei a cabeça e exorcizei o pensamento nefasto.

Prestar mil concursos é praga que não se roga. Nem em pensamento.

22.3.07

Por que é que eu não posso dar dois?

Leonardo da Vinci era dono de um QI 180 (uns dizem 220, mas sejamos humildes). Não é à toa que o cara inventou o pé de pato, a bóia, o salva-vidas, o helicóptero, o canhão, a metralhadora, o paraquedas, a ponte suspensa, a asa delta, o submarino e mais um monte de máquinas repletas de engrenagens e manivelas e que não faço idéia de como funcionam e para que servem, mas que são muito legais pra ficar olhando. Isso sem contar que pintou a Mona Lisa, a Santa Ceia e desenhou o Homem Vitruviano.
Leonardo era dono de uma criatividade assustadora. Pra Freud, ele era mais uma bicha que via pênis em tudo que é canto. Eu sei lá, viu? Mas também, o que o nobre italiano fez com sua rosca genial é problema dele. O fato é que, ativo ou passivo, o maninho foi pintor, arquiteto, cientista, músico, engenheiro, estrategista militar, astrônomo, escultor e, segundo dizem lá na Toscana, prendia a atenção de toda a corte com suas histórias fabulosas.

Agora, contador o cara não foi. O que é perfeitamente compreensível.

16.3.07

Os filhos de Aurélio.

Acabei de chegar de mais uma aula inicial e como todo começo de curso, o professor fala sobre a vida de um concurseiro, ou ao menos, como deve ser o dia-a-dia de um cara que, assim como eu, tem a pretensão de ser um funcionário público efetivo.
Geralmente, os mestres são concursados e assim falam com absoluto conhecimento de causa. Listam os perrengues que passaram até a aprovação fatal, as dificuldades e privações que foram submetidos e do quanto todo esse sacrifício valeu a pena. Uns, mais exaltados, dizem que o dia da aprovação foi o mais feliz de suas existências. Não hoje. Carioca Tributador se limitou a dizer que foi bom e que hoje pode realizar alguns de seus sonhos, como estudar os quatro filhos.

Mas não foi só nas suas realizações que este fiscal do ICMS do Rio foi inovador na aula inaugural. Tudo bem que ele falou coisas como “aqui, não se estuda pra passar mas até passar” e que “há diferenças entre quem se interessa por um emprego na máquina do estado e quem se compromete a conquistá-lo”. Também, não deixou o lugar comum quando enumerou as virtudes que um concurseiro deve ter (e caso não as tenha que trate de providenciá-las): persistência, dedicação, renúncia e concentração. Mas aí, nesse momento, ele fez uma observação no mínimo curiosa:
-Às vezes, a inteligência atrapalha.

Cuma?

Pois é, e agora tem essa: ser inteligente é um atraso no mundão. Ele se explicou dizendo que não é raro ter pessoas inteligentes que, já dando com a vitória certa, relaxam na preparação. Coisa que uma mula não faz em hipótese alguma pois, ciente de sua burrice, estuda até que os olhos escorram pela face indo pingar lá embaixo, em gotas viscosas, nas páginas da Carta Magna. E no final da disputa, o que temos? A anta na lista de aprovados e o inteligente de volta a sala de aula.

Eu coçava o queixo pensando em quantas fábulas de La Fontaine o nobre Carioca Tributador havia lido na infância, tempo em que ele sonhava em ser qualquer coisa, menos um fiscal, quando minha divagação é abruptamente interrompida pela avassaladora conclusão do mestre:
-O burro esforçado passa. O inteligente, nem sempre. E vamos a aula.

Esforço eu não estou poupando e inteligente, assim, inteligente, inteligente, eu nunca fui. Já tentei ser, mas o máximo que consegui fui um 8,5 numa prova de História Geral, no colégio. E olha que eu colei uma ou duas questões.

Em outras palavras: minhas chances são boas.

8.3.07

O “p” não é meu.

Não sei bem em qual dos mistérios de Agatha Christie que me envolvi na adolescência, havia na cena do crime um bilhete supostamente escrito pelo próprio assassino. A polícia pegou o manuscrito, listou alguns suspeitos, comparou suas caligrafias com os garranchos do tal bilhete e vo-a-lá: encontraram o assassino. Então, Hercule Poirot contrariou o óbvio e apontou uma senhora, até então insuspeitíssima, como assassina.
-Mas por quê?, perguntaram todos.
-Simples, disse o perspicaz detetive belga enquanto cofiava as pontas de seu bigode: o seu suspeito escreve o P maísculo desta forma e aqui, está escrito de outro jeito. É muito difícil alguém ter duas caligrafias para a mesma letra.
Todos os queixos caíram e ele acusou a bondosa velhinha que, além de assassina, mostrou-se uma péssima falsificadora.

De todos os livros de Agatha Christie que li, este foi o único cujo desfecho não me convenceu e o motivo é simples: eu tenho duas grafias para várias letras. Jota, agá, a, eme, ene, érre e mais algumas, inclusive o pê. Eu escrevo o pê assim hoje, assado amanhã e nunca matei ninguém.

Não sei bem porque essa história entrou na conversa que tive com um amigo enquanto tomávamos um café na padoca do japonês, numa breve visita que o figura me fez por estes dias. Mas o fato é que entrou, foi se espalhando e quando percebi, ela estava sentadona no sorriso desconfiado do meu amigo.
-Você, hein?
-Cuma?
-Com toda essa cultura, quando estiver no governo, você vai fazer a festa, hein?
Puxou o guardanapo e tirou do bigode por fazer alguns farelos de pão:
-Esse despiste é bom, mano. Muito bom.
Acendeu um cigarro:
-Muito bom mesmo.
-Cuma?
-Vais falsificar altos documentos, hein malandro? Arrumar notas frias... viche! Tô até vendo...
Deu-me dois ou três tapas nas costas e concluiu:
-Você vai longe, malandro.
Rimos e assim, falando groselhas desse tipo, chegamos ao caixa onde o japonês, sempre sorridente, aguardava nosso dinheiro.
-Paga a conta aqui que eu não conto nada pra ninguém, disse meu amigo.
-Cuma?
-Não se finge de besta que você me entendeu.

Eu nem aprendi contabilidade direito e já tem neguinho querendo tirar casquinha.

7.3.07

Chupa Bial!

Confinado, sinto a cada minuto o Paredão que se aproxima.
Eu não vejo a hora de reencontrar vocês aí fora.