20.12.06

A/C: Velho Batuta

Bebi pouco.
Fumei menos ainda.
Quase não caí na gandaia.
Dormi cedo.
Balada então, só fiquei nos convites.
Acordei cedo.
Pouco forniquei, mas continuo amando a próxima.
Pouco xinguei a mãe do juiz.
Estudei pra cacete.
Fiz as lições da escola.
Não fui malcriado com meus pais.
Tratei bem meus irmãozinhos.
Enfim, tive o comportamento de cristão exemplar, digno daqueles que o Senhor exige.
Creio que nunca apresentei tão boas maneiras no decorrer de um ano como neste que chega ao fim. Não mesmo. Talvez por isso, por sempre ser uma criança levada, jamais me deste tudo o que eu pedia em minhas listinhas. Mas eu entendo, tudo bem, já passou. Pensando bem, não iria caber em vosso saco aquela montanha de brinquedos, né não? Além do mais, se o Senhor trouxesse tudo o que eu pedia, não haveria espaço em seu trenó para os presentes das outras crianças. É Seu Noel, o Senhor agiu muito bem em não trazer os pedidos de Natal de minha infância

Viu? Também ando solidário. Tão solidário que neste ano, o presente que peço não ocupará espaço no seu saco, sobrando lugares para brinquedos de outras criancinhas.

O meu presente cabe em seu bolso.

Prático, não? Eu não queria dizer pra não ficar me gabando mas a praticidade é outra qualidade que desenvolvi em 2006. E cá entre nós, eu até separo as latas de meu lixo, afinal, reciclar é coisa de gente consciente, gente de qualidade.

Viste, bom velhinho, como tenho andado na linha? Mereço ter meu sonho natalino, enfim, realizado, o Senhor não acha?

Então, vê se traz o gabarito que te pedi. Se não, a Bahia vai ficar pequena pro meu mau comportamento, ouviu?

Sem mais.

19.12.06

Vou sair pela entrada.

Esta é a época do ano que mais mexe com meu espírito errante. Tudo conspira a favor de happy hours deliciosos e infinitos, nos botequins magníficos de minha amada Paulicéia Desvairada. É difícil permanecer imune ao clima de dezembro. Todo mundo quer se ver, todo mundo quer se reencontrar antes que mais um ano acabe. E dá-lhe cerveja!

Sou esforçado, mas não sou um herói da resistência (Camila-ô-Camila). Não sou capaz, eu sei, de ficar recusando convites pra tomar uma aqui, outra acolá.
Em fuga, busquei refúgio na casa de meus pais, aqui na pacata e bela Jaú de minha infância. Deixei Sampa e os convites pecaminosos de dezembro pra trás, rumo a pureza e inocência árcade do interior do Estado.

E cá estou as voltas com uma tradição familiar. Quando o relógio acusa quase 11 da matina, pouco antes, jamais depois, ouço um som familiar vindo lá da cozinha - aquele barulhinho inconfundível de uma lata de cerveja sendo aberta. Minha boca transborda d’água. Toda manhã meu pai toma sua gelada conforme sempre me ensinaram na família:

-O melhor horário pra se tomar a primeira cerveja do dia é entre às 10:30 e às 11 horas da manhã.

Agora, com o Código Tributário Nacional na minha frente, ouço o som da tentação vindo da cozinha. Ele soa como o cantar duma sereia nessa manhã jauense de sol e calor. Lembro-me de um trabalho de educação artística que fiz para colégio, nessa mesma mesa, quando tive que desenhar Iara, a sereia amazônica que enfeitiçava indíos e cara-pálidas com seu canto.

Aqui não há vitórias-régias ou pororocas. Mas há, eu sei, uma cerveja aberta lá na cozinha, donde vem uma melodia encher minha alma de tentação:

-AH! Que delícia!

Volto aos estudos, passo os olhos pelas formas de extinção de crédtio tributário mas sou logo interrompido por uma voz conhecida. Uma voz que sempre soou em minha vida como um princípío de sabedoria, de responsabilidade, de segurança, de amizade e amor:

-Vai uma gelada aí, filhão?

Não adianta: dezembro é dezembro em tudo que é lugar.

13.12.06

Em bom português.

Quanto mais eu estudo, mais me desespero. Quanto mais leio, mais vejo que quase nada sei. Quanto mais conheço, mais pré-vejo as centenas de armadilhas que um examinador pode espalhar pelo meu caminho.
Serei capaz de me safar da maioria delas?
Não sei se minha memória é pouca ou se a matéria é muita. Ou se a culpa não está na memória, mas nos neurônios.

Será de nascença ou aconteceu durante o percurso?

Se legislador fosse, diria que a sensação que antecede à preparação para a prestação de um concurso público, instituto obrigatório para o provimento de cargos efetivos na Administração Pública, pode ser classificada como ansiedade e insegurança, diante o volume de conhecimento a ser mensurado na avaliação e ao fato determinante de que a pratica do estudo não gera direito adquirido a quaisquer concurseiros, em quaisquer esferas de poder.

Como não sou legislador, digo: eu tô é fudido.

12.12.06

Reticências.

Dezembro.
Fim de ano.
Festas.
Horário de verão.
Botequins cheios.
Luz do sol do fim da tarde.
Chopes com dois ou três dedos de colarinho.
Luz dos pica-piscas no cair da noite.
Festas.
Encontros.
Reencontros.
Cervejinha sem compromisso.
Porçãozinhas mil.
Amigo Secreto da firma.
Mais uma, Chefia.
Ensaios das Escolas de Samba.
Pagodinho de leve.
Rock & Roll da pesada.
É claro que eu tô afim.
Prova do líder na Aspicuelta.
Sol.
Chuva.
Casam-se as viúvas!
Tá bom pra tomar uminha hoje, né?
Pra quem é chegado, negar não é mole.
Probleminhas pra resolver.
Barzinho novo.
Surpresas.
Amigos sedentos.
Amigas danadas.
Desce mais uma.
Tum-tum-tum!
Você viu como ela tá boa?
Tá sozinha?
Não me diga!
Um brinde.
Não viu? Tá no You Tube.
Manda pra mim?
Manda mais uma, então.
E salve o tricolor paulista!
Chama o Ceará.
Pastelzinhos? Porção mista.
Fecha pra mim, Grande?
Eu não gosto de acabar em par.
E eu não curto ímpar.
Então desce mais uma que eu só paro quando os pingüins se beijarem.
Sabe a diferença do poste, da mulher e do bambu?
E o bolinho de arroz?
Vamos pro São Cristóvão.
Mais uma rodada.
Fica mais um pouco, pô?
Tirar água do joelho.
Mas essa menina tá bem gostosa, hein?
Táqueopa, que delícia de cerveja!
E os estudos, a quantas andam?

Ai.
Sem saidera.
Até a próxima...

7.12.06

A nível de proporcionalidade.

“O excesso acaso existente não limita em benefício de ninguém. Representa, portanto, apenas um agravo inútil aos direitos de cada qual. Percebe-se então, que as medidas desproporcionais ao resultado legitimamente alvejável são, desde logo, condutas ilógicas, incongruentes. Ressentindo-se desse defeito, além de demonstrarem menoscabo pela situação jurídica do administrado, traindo a persistência da velha concepção soberano-súdito (ao invés de Estado-cidadão), exibem, ao mesmo tempo, sua inadequação ao escopo legal”

Que dá pra entender, dá. Mas que dá uma preguiça danada, também dá, viu?

6.12.06

Intervalão.

Dezembro chegou com aquelas chuvas que, no tempo do Tom Jobim, encerravam o verão lá pelos idos de março, trazendo a promessa de vida em nossos corações. Vejo-a cair violentamente das seguras janelas de meu apartamento entre um exercício de Contabilidade e uma atribuição do Tribunal de Contas da União, conferidas pela Constituição Federal.

São quantos Ministros no TCU?

Eu sempre achei que São Pedro era um chato. Um chato desses de galocha. Volta e meia manda umas chuvas nada a ver para os finais de semana enquanto, às segundas, brinda-nos o insuportável começo da semana com um sol de “rachar catedrais” (que saudades do Nelson, que saudades!). Um colega, que Deus o tenha, dizia que o santo meteorológico era Palmeirense, coisa que não duvido – Pedrão volta e meia demonstra ser um grandessíssimo espírito de porco.
E o vôlei, hein? Que coisa essa história de vôlei... eu acho que o vôlei é um esporte que beira o insuportável. Pra mim, ser um habitante do país do voliebol não me cheira nada bem. Um outro amigo, este vivíssimo e a milhas de distância de Deus, diz há tempos que é impossível dar crédito a um esporte que se baseia em quatro atos físicos: manchete, toque, cortada e bloqueio. Concordo e vou além: a última grande inovação do vôlei foi o saque Jornada nas Estrelas, criado por Bernard que virou até linha de tênis da Rainha, numa época em que ninguém sabia o que era um Nike, mas todos conheciam o tênis Montreal – porque você é jovem!

Nove Ministros, dois terços escolhidos pelo Congresso Nacional e um terço pelo Presidente da República, sendo que dois desses, devem vir indicados por uma lista tríplice feita pelo... pelo... pelo... por quem mesmo?

Ontem vi minha sobrinha e afilhada no Skype. Eu acho essa garotinha algo incrível e não digo isso por ela ser minha primeira sobrinha e afilhada. Digo porque ela é a cara do meu irmão, mas ainda assim, é linda. Isto, Silvio, isto é incrível!
Cara li num dia desses um conto do Machado, esse louco alucinado do Velho Cosme, chamado Marcha Fúnebre cujo protagonista é um deputado de nome Cordovil. Pode? Um visionário esse Joaquim Maria, um visionário!

Mas me diz: você sabe a diferença da mulher, do poste e do bambu?

Lembrei! A lista é elaborada pelo próprio Tribunal, segundo critérios de merecimento e antiguidade. Antiguidade? Será esse o termo correto?

Cara, não é que eu tô aprendendo esses troços mesmo? Se eu não passar nalgum concurso, vou abrir um cursinho. Eu ando achando que as coisas que dão mais certo nesse país é fundar uma religião e abrir cursinhos preparatórios para concurso público. Fica aí minha dica para os empreendedores de plantão. Por falar nisso, eu sempre quis ser um profissional das idéias, sabe? Não? Explico.
Eu daria idéias. Só isso. Você está na sua empresa, trabalhando e precisa ter uma idéia. Você me liga, a gente acerta o preço e eu dou uma idéia. Já imaginou? Eu, num barzinho com uma gata recém conhecida e ela me pergunta com um sorriso meigo enquanto o manobrista pára meu carrão importado na porta do botequim:
-E no que você trabalha?
-Eu dou idéia, gata.

Opa! Bateu o sinal. Tenho que voltar pro estudo. A gente se lê pelos corredores, falou?
Aquele abraço de Ministro.