30.3.06

Direito do Trabalho.

-E agora, partiremos para um assunto mais prazeroso.
Professor Da Hora havia massacrado a turma com quase duas horas consecutivas falando sobre Jornada de Trabalho, Contratos e definições de empregado e empregador. Coloquei grafite na lapiseira, virei a página do caderno e melhor me acomodei na carteira, não acreditando que de fato, teria a seguir um assunto prazeroso.
Mas fui surpreendido.
-Vamos falar sobre Férias.
Não me contive e me pronunciei. Sem pedir licença ao professor ou a qualquer um dos meus companheiros de sala, expus todo o meu conhecimento sobre este assunto que tanto me fascina:
-Aêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê!
Todos me olharam. Creio que entenderam.

28.3.06

Tô pronto.

Professor Viúvo do Bem faz uma pausa na aula e passa a falar sobre a postura que cada um dos concurseiros deve ter quando estiver ali, diante da prova fatal. Solta um exemplo:
-Em 1958, o Brasil tinha medo de jogar contra o País de Gales na semifinal daquela Copa. Então, Garrincha disse, olhando para o uniforme adversário: “Mas eles parecem o São Cristóvão”. E o Brasil foi lá e venceu. Percebem? De repente, ninguém mais temia o País de Gales e é isso que vocês devem fazer: não ter medo da prova, mesmo que ela pareça ser dificílima.

Cerrei os olhos e me arrumei na cadeira.

-Professor, um minutinho de sua atenção. O senhor falou tudo, tudo errado. Senta aí, isso, calma... isso mesmo, aí mesmo. Fica quietinho e aprende com quem realmente entende do assunto. Olha só: o jogo que o Garrincha comparou o escrete adversário ao frágil São Cristóvão foi na final da copa seguinte, a do Chile, em 1962. O time era a então poderosíssima Tchecoeslováquia. Esse jogo contra o País de Gales, o qual o senhor erroneamente se referiu, foi, de fato, na Copa da Suécia, em 1958, não na semifinal e sim nas quartas. Inclusive, se o senhor me permite uma observação, foi nesta partida em que Pelé fez seu primeiro gol em Copas do Mundo. Agora, a famosa história contada por jornalistas da época, de que o Brasil sentira medo de um jogo, rolou mesmo em 1958, mas não contra o País de Gales e sim contra a União Soviética e seu inovador futebol científico. Foi nesta partida que pela primeira vez jogaram juntos Pelé e Garrincha (e Vavá Peito de Aço). Também foi nesta partida que Zito entrou como titular, no lugar de Dino Sani (e vejam os amigos aqui presentes, que coisa: anos mais tarde, o mesmo Dino Sani foi derrubado por duas vezes do comando do Corinthians após derrotas do esquadrão alvinegro para o glorioso Tricolor Paulista, em 1970 e 1975. Além dele, como todos devem saber, foram mais 12 técnicos que o Tri Campeão do Mundo detonou de seu mais querido freguês). Os três minutos iniciais desta peleja, contra os soviéticos, são considerados até hoje os maiores da história do futebol. Nestes primeiros 180 segundos de jogo, Pelé e Garrincha cacetaram duas bolas na trave soviética e Vavá fez o primeiro dos dois gols que metemos no tal futebol científico. Percebam: tudo em escassos três minutos. Só depois de apavorar os comunas é que pegamos o País de Gales e então, não tínhamos mais medo de nada. Aliás, o País de Gales tem a camisa escura, bem diferente da camisa branca dos tchecos e do humilde e suburbano São Cristóvão. Pronto professor: pode continuar sua aula de Direito Civil. Obrigado a todos pela atenção e você aí, sentada na frente, faça-me o favor de usar blusinhas menos decotadas pois esses peitões estão tirando a atenção da rapaziada. Com uma concorrência dessas, nenhum homem dessa sala vai passar em concurso algum.

Claro que eu não disse nada disso, guardando tal discurso em minha mente. Enquanto saboreava meus instantes de conhecedor de alguma coisa, Viúvo do Bem havia voado por umas 20 páginas da apostila, deixando-me lá atrás. Sacudi a cabeça pra voltar a realidade e antes de centrar-me totalmente à aula, ainda pensei com meus amarrotados botões:

-Qual o concurso que o Falcão ou Casagrande prestaram?

23.3.06

Infrações.

-Juizinho sem vergonha, inconformou-se meu irmão.
-Isso não foi pênalti nunca, bradou meu pai.
E eu, calmo:
-Foi falta.
-Mas foi bola na mão, filho. Olha o replay!
-Ora, trata-se de um crime culposo, talvez negligência do beque ou imperícia deste profissional. Não sei, preciso verificar... se marcar, a culpa, nesse caso, caracteriza-se por imprudência. Bom, o que posso afirmar é que temos aí a configuração de um crime e, se tem crime, deve haver punição.

Silêncio na sala.

Cocei a barba e voltei-me ao meu irmão.
-E você, rapazinho, saiba que, ofendendo o juiz assim, está cometendo um Desacato a Autoridade, artigo 331 do Código Penal.
-Pirou, cara?
-E com pena de seis meses a dois anos. Se liga. Agora, você não está mais sozinho e tem uma filha pra criar. Você a representa pois, menor de dezoito, você sabe tão bem quanto eu, é considerado incapaz.

O silêncio aumentou.

De repente, meu pai se levantou e saiu da sala, voltando pouco depois, antes da cobrança da penalidade máxima, com uma cerveja na mão. Deu-me um copo, serviu-me com dois dedos de colarinho e disse em tom de conselho:

-Toma filho. Você tá precisando.

22.3.06

Cumplicidade.

Graças a Ozzy, acabou.
Saio rápido da classe e, exausto, chamo o elevador. Ainda havia uma última missão a ser cumprida antes do almoço: o xerox. Aperto oito e só então percebo que mais alguém entrou no velho Atlas Schindler daquele edifício ancião:
-Tá subindo?
Uma garota que não me era estranha. Mas quem era? Olhei mais uma vez e reconheci. Claro: ela assistiu as aulas de Direito Comercial com o professor Engraçadinho na minha turma.
-Putiz... tá. Vou no Xerox pegar o resumo do Engraçadinho, tá ligada?
Ela sorri desanimada e diz que também está sem o material e vai aproveitar para pegar suas cópias também. Solto um suspiro cúmplice e desabafo:
-Acho o Engaçadinho bem chato, viu?
-Porra! Ele é insuportável!

E assim fiz minha primeira amizade no Fantástico Mundo do Concurso Público.

17.3.06

Enquanto você está no banheiro.

Há 16 anos fiz cursinho pra entrar na faculdade de engenharia. De lá pra cá eu sai da casa de meus pais e vivi em duas cidades, conheci muita gente, fiz grandes amigos, dei umas beijocas gostosas, tomei uns pés na bunda doloridos, bebi um bocado, troquei de faculdade, formei-me publicitário sem nada aprender, mantive amigos, fiz novos, comecei a trabalhar, comprei carro e otras cositas mais, tive minha Toya roubada, convivi com gente muito ruim e vivo cercado por gente muito boa, bebi mais um pouco, fumei, comi, viajei um bocado por aí, parei de fumar, tive meu carnaval inesquecível, escrevi um livro, voltei a fumar, meu time foi tri-campeão do mundo, ainda não transei com duas garotas nem fui pra Patagônia e ganhei uma sobrinha linda, lindíssima que quis vir ao mundo no mesmo instante em que eu, tio e padrinho, estava em Copacabana, enlouquecendo com os Stones.E ainda hoje, os japoneses e, principalmente as japonesas magrinhas e de óculos que sentam nas primeiras carteiras, causam-me calafrios.

16.3.06

Reconhecimento.

Não era a careca.
Não eram os olhos tristes.
Não era a pança que ele tentava, quase que em desespero, segurar dentro das roupas sóbrias.
Não era a forma como caminhava.
Não era a letra com que escrevia na lousa, redondas, legíveis, típicas de mãos que obviamente freqüentaram cadernos de caligrafia na infância.
Não era seu nome.
Eram suas piadas e o tom de voz que usava para contá-las.
Não havia mais dúvidas. Eu o conhecia perfeitamente.
Professor Engraçadinho era mais um desses profundos chatos.

15.3.06

Desejos.

Oitenta e seis, pega o oito. Oito vezes dois, dezesseis; oito vezes um, oito com quatro, doze para dezessete cinco. Seis vezes oito, seis vezes oito, seis vezes oito...puta merda! Seis vezes oito... que horas são? Pára e se concentra, vamos lá: seis vezes oito: quarenta e dois. Quarenta e dois? Seis vezes sete sim, quarenta e dois, seis vezes oito é igual a quarenta e oito. Isso! Quarenta e oito com um, quarenta e nove pra quarenta e sete... passou. Tenta o sete. Sete vezes um sete, sete com quatro, onze pra dezessete, seis. Seis vezes sete, quarenta e dois... telefone. Deixa eu atender.

Onde estava? Quarenta e dois para quarenta e sete, cinco. Sete vezes três vinte e um, com quatro vinte e quatro pra trinta e dois, oito. Sete vezes cinco trinta e cinco... eu adoro a tabuada do cinco... se todas elas fossem iguais a você... concentração, bicho! Concentração: sete vezes cinco, trinta e cinco com dois trinta e sete pra trinta e oito, um. Um não dá. Mete a vírgula, bota um zero, outro e outro. Tenta o nove. Não dá... calma. Será? Nove..hum... vamos ver, vamos ver... não dá. Acho que nem o oito. Oito... puta que pariu!
Levanto-me para tomar uma água tentando desviar os olhos da calculadora que repousa impunemente sobre a apostila de Direito Comercial. Houve uma época em que eu tinha tentações bem mais divertidas.

9.3.06

Um escândalo de privatização.

Antes de passar pela catraca, avistei, lá longe, aqueles peitos que invariavelmente paralisam as aulas, seja lá qual for a sua disciplina. Porém, desta vez não estavam a sós e eram pressionados com voracidade por um outro peito, o de um magricela alto, num canto nada discreto da Estação República de Metrô.
Antes de descer o primeiro lance de escadas, olhei para trás, buscando uma confirmação daquele escândalo.
E não me restaram dúvidas: os peitos estão privatizados.