20.8.07

A nível de concentração.

“...podemos definir competência, com foco na obrigatoriedade do seu exercício, como o círculo compreensivo de um plexo de deveres públicos a serem satisfeitos...”.

Pára de ler e presta atenção: assista ao Fragmento de hoje. Pois mais uma vez, não consegui colocá-lo aqui. E dá-lhe You Tube!

Aproveita que deu uma paradinha e assista o pacote: Sexta-Feira e A nível de Indignação. É rapidinho.

E agora, voltemos ao estudo.

14.8.07

Tem que ter peito.

As pessoas no mundão vão e vêm sem quaisquer limitações ao tráfego. O direito constitucional, dito fundamental, expresso no artigo quinto da Constituição, que nos garante livre locomoção pelo território nacional em tempos de paz é plenamente observado entre os concurseiros. Nessas, você pode tirar duas conclusões: uma é que volta e meia fico órfão das amizades que faço nas salas de aula e outra é que, de fato, estou me tornando um nerd absoluto a ponto de citar a Carta Magna num texto corriqueiro. Mas vamos em frente.

Como a maioria das pessoas fica de fora da lista classificatória, elas reaparecem com a mesma desenvoltura com que somem das salas.Todos no mundão tem sua vida pautada pelos editais e alternam sua condição nos cursinhos preparatórios entre desaparecidos e presenças constantes.

Eu não sou uma exceção e tenho minhas aulas pontuadas por encontros e desencontros. Ontem, por exemplo, no intervalo da aula, revi um cara que havia conhecido num curso que rolou no ano passado, quando me preparava para a prova de Fiscal do Trabalho. Porém, embora nos reconhecêssemos, não houve qualquer reação que extrapolasse um breve “e aí, beleza?”. O fato é que esse cara que aparenta ter seus 40 e poucos anos e carrega o peso da constituição de uma família num dedo esquerdo, sabe muito sobre as matérias. Muito mesmo. Lembro-me durante as aulas de todo o conhecimento que ele transpirava, fosse em suas perguntas aos professores, fosse em comentários jurídicos que fazia durante o café do intervalo.

Quando o vi ontem, naquele corredor cheio de concorrentes, fui acometido de tristeza e medo. Eu tinha certeza que aquele sujeito havia passado e o imaginava autuando patrões malvados e descumpridores da lei. Mas não. Lá estava o cara, com seu café fumegando num copo plástico, pronto para assistir a mais uma aula. Ver um concurseiro com todo aquele conhecimento ainda na fila, é de deixar o cabelo em pé. É ter uma idéia pura e cristalina de como é a concorrência real em um concurso de grande porte. E creiam: é muito mais assustador do que qualquer relação candidato X vaga expressa em frios números dos jornais especializados.

Eu preferia ter encontrado a garota dos peitões.

6.8.07

Coleguinhas.

Ontem, domingão em que o tricolor paulista mostrou ao dos pampas quem é de fato o Imortal, tive aula de Direito Tributário. Não vou me queixar por dois motivos simples: um é que já me acostumei com essa história de trocar divertimento pelo estudo e outro é que eu não seria desavergonhado a tal ponto que reclamaria da vida pra quem me lê em plena segunda-feira. E, se dois motivos são poucos para que eu não me queixe, vai aí um terceiro: se tá no inferno, malandrão, tem mais é que abraçar o capeta. E vamos em frente.

Se abri mão de meu direito ao protesto, também não saí por aí assoviando melodias alegres e dando saltos festivos enquanto ia pra aula. Não festejei o domingo tributário que despontava no horizonte e jamais imaginei que alguém pudesse promover tal comemoração. Mas no mundão, as coisas nunca são assim tão óbvias e, antes das nove da matina, uma garota se senta numa carteira da frente e filosofa:

-Eu gosto de ter aulas no fim de semana. Acho que aproveito mais, não sei. Desde criança, sempre gostei de estudar nos finais de semana.

Ri achando que a moça fazia graça e ainda com o gosto da pasta de dentes na boca, embalei na conversa em ritmo de piada. Mas fui logo cortado pelo seu tom de voz sério e o olhar nostálgico que fitava a lousa ainda sem quaisquer escritos:

-Quando criança odiava a sexta-feira. Ficar dois dias sem ir a escola era um senhor sacrifício pra mim, sabe? Além de não ver os amiguinhos, eu sempre gostei de estudar, de ter aulas.

Foi inevitável eu comparar minha infância descalça e em fuga do colégio com a daquela moça de vestes sóbrias e português refinado. Senti-me, a princípio, um brutal ignorante, um sujeito rasteiro e sem futuro. Cheguei a recriminar meus pais por jamais terem posto em minhas mãos adaptações dos clássicos de Monteiro Lobato voltados para o mundo jurídico. Ao invés de me darem bolas de capotão pra eu correr atrás, deveriam ter me presenteado com As Aventuras de Pedrinho no Mundo da Tributação ou com As Taxas de Emília ou ainda com Sonegações Fiscais da Cuca.

Assim, triste e cabisbaixo, passei a meia hora inicial da aula, sentindo-me um completo alienado. Foi quando entrou uma outra garota na sala. Atrasada, ela trazia na cara a desfaçatez da balada que obviamente havia terminado há algumas poucas horas. Sentou-se ao meu lado, jogou a bolsa no chão e antes de colocar o caderno sobre a carteira, cochichou com uma leve rouquidão:
-Cara, eu ainda tô chapada do Rock and Roll de ontem. Caceta!

Abri o maior sorriso do mundo pra ela, que ficou sem entender o profundo abraço de agradecimento que lhe dei enquanto o Código Tributário Nacional era esmiuçado na lousa azul iluminada por lâmpadas fosforescentes.

1.8.07

Pelas barbas do profeta.

Falta pouco menos de dois meses para minha prova. Digo minha mesmo sendo ela coisa pública por uma simples e fatal razão: é a primeira vez que vou prestar um concurso com reais chances de êxito. Isso não quer dizer que eu esteja num clima de já ganhou, com a bola na cal me dizendo “me chuta, me chuta, me chuta” enquanto das cabines imaculadas do Olimpo do jornalismo esportivo, Galvão (o Bueno, não o Frei) berra frases eufóricas, carregadas de um amor patriótico tão inflamado quanto pequenininho. Nada disso. Pra ser sincero, tô meio com medo. O tempo passa e o frio na barriga aumenta, situação térmica agravada pelo inverno que vem assolando a Paulicéia. Nos últimos dias minha pança está se tornando um iceberg, mas um iceberg às avessas: a maior parte fica sobre a superfície pra todo mundo ver.

Com a aproximação da prova o ritmo de estudo aumenta e as horas ficam mais curtas. Tempo não é mais dinheiro (se é que um dia esse ditado financeiro valeu um tostão furado pra mim), mas é leitura. Gasto meus minutos entre páginas de livros e apostilas, rascunhos e resumos, exercícios de provas passadas que busco alucinadamente pela Internet.

Nessas, não sei se por sorte ou por desleixo, perdi minha agenda de telefones. Fiquei incomunicável visto que nos últimos tempos, salvo minha mãe, ninguém liga pra mim. Ligar pra que? O cara não sai, o cara não fica, o cara só fala em concurso, o cara só tem olhos pra esse troço, o cara não é mais aquele velho e bom Alexei, pois então que passe logo essa fase, é ou não é? E é. Então, aproveitei o sumiço da agendinha pra não mais procurar ninguém e ficar totalmente focado nos estudos. Se pouquíssimos me ligavam, agora eu é que não ligo. Sim senhor, sim senhora, estudar sem interferências do mundo externo. O Lula tomou uma vaia retumbante, um avião caiu perto de casa, a seleção brasileira virou um escrete de mulheres, o Brasil não alcançou Cuba, Ingmar Bergman morreu, o Jader é pai da gostosinha que não serve pra garota de programa e eu só ouço aulas de informática, vejo outras de Direito e leio estratégias de Recursos Humanos.
E vamos que vamos.

Sei que quando ninguém mais me ligava, liga meu irmão:
-Cara, você viu que saiu o edital do concurso do TCU?
Eu tinha visto mas as carreiras eram pra lá de surreais. Tudo bem, eu não tenho medo de trabalho e o que me derem pra fazer eu faço e faço bem. Nem tudo, sacanas, nem tudo, mas boa parte das coisas. Porém ali, naquele edital, tinha coisas fantasmagóricas e acabei por não me interessar muito.
-Mas cara, tem uma carreira que é de Recursos Humanos e a matéria é a mesma que você tá estudando.
Cuma? A mesma? Sério? Se for a mesma, fechou. Duas chances, melhor, muito melhor que uma. Mas escaldado que sou com a sorte que quando me sorri está sempre cheia de graça, quis saber se de fato a matéria era a mesma.
-Quase a mesma, né? Ou você pensa o quê, bichão?
Não pensei nada e fui conferir o tal edital do TCU. Descobri então que há mesmo uma carreira que dá pra encarar e que é de Recursos Humanos. Mas soube também que esse “quase” equivale a um Ulysses de Joyce e que a prova será duas exatas semanas depois da “minha” prova. A sorte não sorria, mas ria de mim. De novo.

Curioso é que depois do edital do TCU, passei a ouvir alguém narrando os acontecimentos desta minha peleja enquanto a bola está sendo disputada lá no meio do campo. Mas o dono da voz, agora divertida, não é o Galvão.
É o Silvio Luís.