27.7.06

Disciplina.

Há algum tempo venho traçando um paralelo entre Concursos Públicos e o futebol e cheguei a seguinte conclusão: quanto melhor o emprego, mais sonhado é o título.

Exemplo: uma Libertadores da América é como um cargo de Auditor da Receita Federal, entendem?

Você é seu time e seus jogadores são as matérias. Eu tenho escalado Direito Administrativo no meio campo, Penal na lateral direita e Constitucional enfiado entre os zagueiros do examinador da prova. Mas pra ter um time competitivo, você precisa treinar muito.

Treinar = estudar.

Quanto mais se estuda, mais se conhece as matérias e mais entrosado estará seu time para os momentos decisivos.

Entendem?

Se não entenderem, não tem problema. Há dias ando pensando nisso e simplesmente não sei ao certo sobre o que estou falando. Sei, isso sim, que ando enfrentando dificuldades disciplinares em meu escrete público. Tenho aqui em minhas mãos um jogador que não gosta de treinar, vive dando migué, não quer nem ouvir falar em concentração, não dá a mínima para a torcida e anda meio fora de forma. Uma autêntica estrela dos campos do Concurso Público.

O pior, é que não tenho escolha: ou boto a Contabilidade pra treinar pesado e deixo ela em ponto de bala pra próxima peleja ou nem estadual do Piauí eu ganho.

26.7.06

Rá, rá, rá.

Embora seja politeísta confesso, tenho uma estreita relação com Deus e Seu filho. Talvez por Ele ser meu velho conhecido desde que orava por sua guarda, curvado sob meu leito infantil, ou por Seu filho parecer uma espécie de roqueiro da Galiléia, converso mais com Ele que com Zeus, Oxalá, Buda, Alá ou mesmo Ozzy - a entidade máxima de uma espécie de Supremo Tribunal Federal de minhas crenças. Se Ozzy falou, tá falado. Não cabe recurso.

Mas falava eu sobre minhas conversas com Deus que vêm de longa data e assim, Ele sabe de minhas aspirações trabalhistas. Sabe o que quero e porque ando estudando tanto. Mas eu também o conheço bem e sei de uma característica do Criador pouco divulgada por crentes, beatos e carolas: Deus tem um extraordinário senso de humor.

Digo isso, pois recebi há alguns dias uma intimação da Justiça Eleitoral, oferecendo-me a oportunidade única de participar, como cidadão honrado, das próximas eleições.

Serei segundo mesário.

Quando sai da junta eleitoral, já com a tarefa outorgada em minhas mãos, olhei para o céu e resmunguei a má sorte. O sol explodia lá em cima e juro que vislumbrei um sorriso entre as nuvens que preguiçosamente se mexiam nas alturas.

Era Deus, esse sarrista infinito.

21.7.06

A nível de sintaxe.

“O STF deixou assente, também, que o princípio da proporcionalidade tem sua sede material no princípio do devido processo legal, considerado em sua acepção substantiva, não meramente formal”

O que será que passa na cabeça do sujeito que formula uma frase dessas?

19.7.06

Concentração.

A cerveja já está na geladeira?
-Claro. Desde a manhã.
Cigarros? Afinal, hoje vai ser nervoso.
-Tá aqui.
Aperitivos?
Azeitona, amendoim, tremoço e, claro, mortadela.
Limão?
-Lógico... comprei logo meia dúzia.
Camisa de gala?
-Lavada e passada, pronta pra mais uma batalha.
Bandeira?
-Hasteada.
Rojões?
-Puta merda! Eu sabia que havia me esquecido de alguma coisa...

As quartas de final de uma Libertadores da América exige mais atenção que Direito Constitucional.

16.7.06

Loiras distantes.

É difícil.
Essa história de concurso público é difícil paca.
Pusta merda!
Na verdade, dá pra entender tudo numa boa.
É mais fácil entender Direito Administrativo, por exemplo, que Dinâmica dos Sólidos ou, imagino, Anatomia.
Mas a quantidade de coisas que um concurseiro tem que estudar é que causa transtornos. E, além disso, tudo deve ser entendido em juridiquês fluente.
Há muito o que se estudar e não raras vezes, as 24 horas do dia parecem pouco tempo.
Acham que exagero, né?
Sem problemas, já estou acostumado com tais desconfianças. Só sabe o que significa partir para os concursos quem o faz.
Eu estudo o dia inteiro e ainda estou com Direito Comercial, Civil, Contabilidade e Estatística acumulados.
As matérias se encavalam e não há tempo, tampouco neurônios, para coloca-las em dia.
Agora, acumulado mesmo está minha sede.

Devo ter um caminhão de cerveja atrasado pra beber.

13.7.06

Tirando o ovo do telhado.

Dias nublados são melhores para se estudar. O sol me dá a sensação de que perco tempo sentado aqui, lendo e tentando aprender mais algumas leis.
Dias nublados são melhores pra estudar. O sol, volta e meia rouba minha atenção, sussurrando-me ao pé do ouvido que a vida está passando impune lá fora.
Dias nublados são melhores pra estudar. O sol é como um convite preso à janela, assinado pela moça bonita ,chamando-me para uma caminhada no parque.
Dias nublados são melhores pra estudar. Quando o sol mostra sua cara amarela, as pessoas parecem estar mais felizes, as moças mais graciosas, as cervejas mais geladas.
Dias nublados são melhores pra estudar. O sol vem me dando vontade de suplicar um mau tempo a São Pedro.

Ou uma passagem pra Sibéria.

God bless you all.

Quando eu era um molequinho, tinha um sonho: queria ser o Ozzy Osbourne. Pintava tatuagens no braço, escrevia como ele seu nome em meus dedos, tentava imitá-lo em frente o espelho enquanto seu diabólico som rachava minha vitrolinha vermelha que àquela altura, já não mais recebia os vinis coloridos com histórias da carochinha.

Porém, jamais quis roubar seu lugar no Black Sabbath. Creio em Ozzy e a ele sou temente, um humilde e fiel súdito. Eu só queria mesmo suas músicas e a voz dele. Queria também seu carisma e aquele jeito louco que ele tem de dominar platéias infinitas, ávidas por um bom Rock and Roll. Só isso. E assim, quando não estava sonhando em ser um jogador de futebol, montava e desmontava bandas imaginárias com meus coleguinhas de rua e colégio. Eles não faziam a menor idéia de que eram parte de um de meus mais ambiciosos planos. Mas também, isso não fazia a menor diferença.

O lance é que, como nunca me vi a frente do Black Sabbath no lugar do Ozzy, tinha que ter outra banda. E, logicamente, outro nome. Lembrei-me de tudo isso no fim da tarde quando me peguei falando sozinho sobre a Constituição enquanto lavava a louça ao som de um velho Ozzy que rugia no toca-discos da sala.

-Artigo Quinto e Seus Incisos.

Hoje, se ainda sonhasse em ser um astro do rock, seria este o melhor nome que poderia inventar para minha banda.

8.7.06

Obrigado, foi engano.

No banheiro, leio com uma calma campestre, a Constituição Federal. Então, de repente, a uma distância infinita de mim e da Carta Magna, um barulho fatal arranca-me do sossego com a força de quem toma uma Bastilha: o toque do telefone.
Exaspero-me e em poucos segundos estou em pé, rumo a sala, sem ter confundido o papel higiênico com a Constituição.
-Alô?
Do outro lado, há sons disformes, não sei bem. Mas nenhuma voz. Insisto:
-Alô?
-Ã.. alô. Oi, boa tarde. Por favor, o Doutor Celso?
A voz era arrastada, preguiçosa, enjoativa. Uma voz feminina, entediada pelo trabalho maçante de todos os dias. Mas o que eu tenho a ver com isso? Ora mocinha, vá a merda. A merda, cacete! Então, você degola minha tranqüilidade, derrubando-me do trono pra terminar toda a revolução a qual fui sujeito nos últimos dois minutos num miserável “desculpe, foi engano?”. Quem você pensa que é, sua maldita inconfidente?
Com o ódio dos traídos, não me contive e desabafei:
-Pois não?
-Boa tarde Dr. Celso. Aqui é Carolina da NONONO (não me lembro o nome da empresa) e gostaríamos de saber se, neste ano, o senhor vai mandar a cesta de café da manhã para a sua esposa.
-Desculpe-me, mas você pode repetir.
-A cesta de café da manhã do aniversário de sua esposa, lembra? O senhor enviou uma no ano passado, lembra?
-Lembro.
-Este ano, temos novidades que, certamente...
-Escuta, que brincadeira é essa?
Houve um silêncio. Insisti, cada vez mais taciturno:
-Por gentileza, quem fala?
-É Clara, senhor.
-Clara, que brincadeira é essa?
-Senhor, não tem brincadeira, eu só...
-Minha mulher morreu.
Silêncio. Este bem maior que o primeiro. Voltei a falar, agora, vingativo:
-Como você ousa brincar com os sentimentos de Doutor Celso Cardoso de Mello Albuquerque Padrão Pinto Neto? Como?
-Com quem?
-Comigo, oras!
Eu não seria capaz de repetir o nome todo e finalizei, indignado:
-Comigo! Logo comigo!
-Desculpe-me doutor Celso, mas o senhor não é Celso Almeida Leoni Filho?
-Não.
Ouvi um longo suspiro que levou consigo o peso de uma terrível fatalidade.
-Desculpe-me, senhor. Foi um engano.
Ela desligou o telefone rapidamente e eu voltei a Constituição. A partir de então, o estudo pareceu render mais.

Nada como quebrar a rotina.

6.7.06

Viva o povo brasileiro.

O juiz apita o final do jogo e antes dos portugueses caírem no choro, já estou no elevador. Ganho a rua na direção da Rainha da Jabaquara, a padoca que mais gosto em meus arredores que, por ironia do destino ou da raça, tem como proprietário um japonês. Encosto no balcão, cumprimento o Zé, um santista que faz mistos quentes recheadíssimos, e peço meu café espresso. Fico de bobeira por ali, olhando o movimento em busca de uma última distração antes de voltar aos estudos e encarar mais algumas horas de Direito Administrativo. E foi assim, passando os olhos entre pães franceses, Carolinas, sonhos e suspiros, que vi, no caixa, o dono da panificadora inconformado. Blasfemava, xingava e, creiam, estava corado de raiva.
O japonês,não sei se por força do ofício, por raiva da França ou simpatia ao Felipão, não se conformava com a derrota portuguesa e desejava ao juiz da peleja e a sua mãe, toda a sorte de fatalidades.

Jamais, em toda minha vida, havia visto uma prova tamanha da miscigenação.

5.7.06

Golpe.

Desde a indecente partida de sábado, volta e meia penso na seleção e no futebol inacreditável que deixaram de jogar.

-Não é possível.

Abro os livros e suo a camisa para entender como são as regras do jogo o qual todos os dias participamos. Quando ganho, não poupo rojões. Mas não comemoro derrotas numa boate qualquer, cercado por prostituas de grife.
Mas isso não vem escrito em leis ou manuais de conduta. Tampouco é um comportamento exigido pelo “professor”.
Isso vem de dentro e tem muitos nomes, entre eles vergonha.
Volto aos estudos, abro a Constituição, mas logo volto a pensar em quadrados mágicos, pedaladas e melhores do mundo.

-Não é possível.

Deveria ser inconstitucional jogar como jogaram no sábado.

1.7.06

Um clássico.

Esqueçam a revanche.
Observem o camisa 22 da seleção francesa.
Esqueçam a bizarra final de 8 anos atrás.
Notem o assustador futebol do atacante gaulês.
O importante, o fundamental, o soberbo é que amanhã, venceremos um dos maiores personagens de Victor Hugo: o Corcunda de Notre Dame.

E tenho escrito.