17.4.07

Sábado de sol.

Sábado eu tenho aula.
É mole?
Das nove da manhã às quatro da tarde.
Pode crer?
De Contabilidade.
Aí esfarelou, né não?
Mas tudo bem, tudo bem, vamos lá. Eu acordo e vou. Concentro-me durante todo o percurso, da Saúde a Sé, da Sé a República, pensando que vai ser legal, que vai ser bacana, que vai ser, enfim, supimpa.
-Tesão! Mais um sabadão massa!

É melhor assim. Na verdade, é bem melhor pensar que vai ser legal, que esse troço todo é um desafio e que deve ser superado numa boa e que é de desafios que vive um homem. Sem essa de achar que é uma merda, que é chato, que é um porre e tal. Pensamento positivo, bicho, que a coisa flui, pode crer?

-É nozes.

E assim, nessa pegada, a manhã passa em meio a lançamentos contábeis e participações societárias classificadas no Ativo Permanente, Imobilizado. Das nove da matina a uma da tarde, com 15 minutos de descanso, fico ali, numa sala apertada, com mais 110 concurseiros, destrinchando os mistérios da Contabilidade com ar condicionado bombando sobre as cabeças em transe.

E então vem o almoço.
E então, vem o depois do almoço.
E então, o bicho pega.

Com o estômago cheio, sabe como que é, né? A comida bate no estômago, o estômago, que não é de ficar quieto, senta a porrada nos neurônios que tentam paralisar as atividades cerebrais. Tudo isso se reflete nos olhos, que ameaçam cruzar as pálpebras, e na mente, que bota em prática a Operação Tartaruga.

É quando lanço mão de minha diplomacia interior. Enquanto escovo os dentes ao lado dum oriental magricela, discurso para os meus botões, representantes da classe neuronial na sub-região corpórea de meu cérebro. Sentamos na mesa de negociação e discutimos propostas. Digo que temos que estar unidos, principalmente, nas adversidades. Cobro uma postura honrada de todos, visto que nas locuradas, baladas e festanças ninguém reclamava. Agora, era preciso que todos cooperassem. Jogo até aquele papinho de estarmos no mesmo barco e tal. Aquela conversa manjadíssima de que todos deviam dar um pouco de si, num esforço coletivo em prol de um objetivo comum, eu também uso. E nosso objetivo comum é o de sempre: mais baladas, mais festanças e outras locuradas. No mais, o pior já passou. Naquele momento, quando o relógio acusa duas da tarde e a aula recomeça, só faltam duas horas para o fim daquilo tudo e convenhamos: pra quem está naquela cadeira desde as nove da manhã, 120 minutos é coxinha. E das Brasileiras.

Com o acordo na mente, concentro-me, aprendo, anoto, resolvo exercícios e tiro minhas dúvidas. O tempo passa e eu lá, com meus neurônios, estômago, olhos e botões focados na Contabilidade.

O relógio bate 15:30 e a situação se torna dramática. Eu não consigo mais enganar a mim mesmo. Aquilo tudo é uma merda, é difícil, é chato, é um porre de Cinzano às duas da tarde sob o sol da Bahia. Ainda tento alguma coisa mas àquela altura, o estômago ronca, os neurônios cruzam os braços, os botões tapam os ouvidos e os olhos buscam a loira nariguda, de voz estridente e, se não é bela como sua amiga da esquerda, é dona de um corpo bem gostoso.

E então, eu me entrego.

9.4.07

Plano de Incentivos.


Quando em Jaú, revezo os estudos entre a copa e a cozinha. Mas hoje, em homenagem ao sol estupendo que rasga o céu do Capitão João Ribeiro de Barros, fui estudar no quintal, mais propriamente embaixo do puxadinho ao lado da churrasqueira que tem mais histórias pra contar que a adorável Cheherazade (aquela que por mil e uma noites enrolou um sultão corno e vingativo da velha e boa Bagdá).
E cá estou com um livro de Recursos Humanos, lendo sobre sua administração moderna e voltada para os resultados corporativos e pessoais de cada funcionário. Que beleza!
Há, a minha frente, a Primavera florida que há anos pende seu corpo para a direita sobre o frágil caule, obrigando meu pai a escorá-la com alguns pedaços de madeira. A luz do sol que ilumina cada uma de suas flores, estende-se sobre o gramado cheio de sapos de argila, vestidos com sungas e biquínis e óculos escuros. Os pássaros vêm e vão em busca de farelos e já não estranham as batráquias esculturas que curtem o dia ensolarado no quintal de minha infância.
Atrás de mim há o cheirinho da comida da mama, inconfundível, nostálgico e delicioso. Ouço a panela de pressão cozinhar o feijão preto, um cantarolar baixinho de minha mãe e uma lata de cerveja sendo aberta, denunciando que meu pai tá na área.
Ele fala alguma coisa sobre a neta que veio na Páscoa, minha mãe conta algumas estripulias da pequena, eles riem e se beijam.

Rapaz, que coisa boa.

4.4.07

Chocolates.

Certa vez, um amigo esbarrou numa encenação da Paixão de Cristo enquanto levava sua filha duns seis anos de um lugar para outro da velha e boa Jaú. Diante a insistência da pequena em assistir o drama, parou, cruzou os braços e pousou de espectador. Cabe aqui dizer que se trata de um ateu que não contente em nada crer, pratica sua descrença. Entediado ao que aos seus olhos é uma tremenda palhaçada, ele aguardava ansioso o fim do espetáculo para que pudesse, ao lado da filha, seguir seu caminho.
No final, na crucificação do Nazareno, percebendo a filha triste com história tão trágica, ele a toma nos braços, beija seu rosto angelical e profere com autoridade:
-Não fica triste não, filha. No ano que vem Ele está aí de novo.

Um outro amigo, este mineiro, contou que em sua cidade no interior do Estado, designaram para os papéis de Jesus e um dos guardas da escolta romana, dois desafetos. O guarda, aproveitando-se da situação, não hesitou em açoitar com uma raiva pagã a inimizade que levava a cruz nos ombros. Depois de tanto apanhar, o Cristo de Minas tirou da cara a feição serena que a tudo perdoa, deixou a cruz de lado e partiu pra pancadaria.

Eu também tenho uma história de Páscoa. Certa vez, há muitos anos, fomos a Macatuba ver a encenação da crucificação. Meu avô que hoje toma suas brejas com Poy, Leônidas, Telê Santana e seu Anselmo lá no andar de cima, queria ver essa que parecia ser a grande dramatização da Paixão de Cristo do interior paulista. Foi uma merda. Tinha muita gente, nós nos perdemos de meu avô e tudo que eu me lembro era de um fox paulistinha que ficava em pé ao lado do seu dono enquanto esse, uma besta endinheirada, filmava a toda aquela porcaria com ares de Fellini.
Neste ano, não terá encenação. Vou pra Jaú levando na mala a Constituição Federal e uns exercícios de Contabilidade. E pensar que Macatuda já foi roubada na Páscoa...