27.2.07

Na calada da noite.

Era uma tarde de sol, um sol que entrava pela janela aberta sem fazer cerimônia. Havia também um concurso que se aproximava. Não sei bem como eu sabia que estava prestes a fazer a prova fatal, mas o fato é que eu sabia. Talvez fosse pelo nervosismo que sentia, fruto da ansiedade voraz que consumia meu sossego até corromper minha concentração. Ou seria o simples fato daquele dia estar com toda a pinta de véspera (grande Guimarães!).
Sentei-me, espreguicei-me como de costume e antes de meu último ossinho estalar, percebi que meu rascunhos haviam sido roubados.

-Roubados? Como assim?

Também me espantei com estapafúrdio acontecimento. Como poderiam ter roubado meus rascunhos, de dentro do meu quarto, se moro sozinho e a empregada só viria amanhã? No mais, convenhamos que roubar meus rascunhos de Constitucional e Administrativo não é lá furto vantajoso, que fará o larápio gozar altos proventos. Mas não importa: o fato é que meus rascunhos não estavam ali e eu fora usurpado.

Levei as mãos a cabeça e pensei no assunto. Quem poderia ser o filho da puta que me roubou?

-O Gordinho sabichão.

Claro! Maldito CDF dos infernos! Fui atrás dele. Corri para a sala, abri a porta, me mandei pelo corredor e chamei o elevador. Curioso: aquele não era o corredor de meu apartamento, mas tudo bem. A nova síndica trocou o pessoal da limpeza e poderia ter aproveitado o embalo para mudar os corredores também. Será? O que sei é que, quando já estava lá pelo segundo andar, me dei conta que só trajava cuecas, deixando minha bela e pomposa pança balançando livremente no suave chacoalhar do velho e bom Atlas Schindler.

Acordei com o rádio, Bandeirantes, O Pulo do Gato, e as primeiras notícias do dia. Eu suava e, se não com medo, ao menos estava receoso. Antes de levantar, avistei meus rascunhos metidos do lado do Vade Mecum (um volume com sei lá quantos Códigos, Leis, Constituição, Súmulas e toda esta parafernália jurídica) e sorri aliviado.

Atualmente, até meus pesadelos estão mais nerds, mais bobalhões. Houve uma época em que eles pareciam contos de Allan Poe. Hoje, parecem ter sido escritos pelo Mário Prata.

14.2.07

Quarta de cinzas.

A seleção brasileira não tem um jogador que jogue no Brasil. Vejo o escrete canarinho como uma espécie de time da ONU, cheio de moços- exemplo, gente de boa índole, abarrotada de boas intenções. Acho que vai chegar o dia em que seremos dirigidos pelo Koffahman, que ao menos não se vestirá com as roupas que transformam gente feia em pessoas ridículas.

Em Bragança Paulista, os caras metem fogo num carro com uma família dentro a troco de uns 30 mil reais. No Rio, arrastam uma criança por 7 km por um Corsinha. Nessas, em meio uma indignação que toma os tupiniquins da sola dos sapatos à ponta dos fios de cabelo, o debate se restringe a aumentar o número de presídios e baixar a maioridade penal. As idéias que tenho acompanhado, tanto as dos políticos quanto a dos populares, são de uma imbecilidade brilhante.

Enquanto isso, nas últimas instâncias, aqueles que deveriam estar preocupados com soluções para melhorar o país de fato e direito, discutem, aos berros, que querem ganhar mais: quem ganha 22 mil, quer 24 e quem ganha 24 quer 30 e quem ganha 30, quer desviar um bocado a mais pra conta dalgum laranja da família. Ou da vizinhança.

Aí eu chego num cruzamento e dou um pacote de Menthos começado pra um moleque que traja uma camisa falseta do Real Madrid e joga umas bolinhas pra cima. Ele me agradece de coração.

Bicho, se não caísse atualidades nos concursos que presto, ia aproveitar a temporada de estudo pra não saber de mais nada que rola aí fora, viu?

8.2.07

Clássico.

No intervalo da aula de Constitucional, fui tomar um café na lanchonete da Colega, de quem já falei num fragmento pretérito, que fica naquela praça que não me lembro nome, atrás da Biblioteca Mário de Andrade. Sabe? Pois então, é lá. Sempre que tomo esse cafezinho, ganho um papo com a simpática pernambucana e uma rápida caminhada pela Av. São Luís. E lá andava eu, com minha tricampeã camisa tricolor, tentando digerir os ensinamentos de Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo-Né quando, entre os transeuntes, avistei um sujeito me encarando. Ele vinha em minha direção, trajando uma calça suja, camisa alvinegra desgastada pela má qualidade de sua pirataria e um boné surrado. Já próximos, ele pára, coloca a mão na cintura, bate o pé no chão num gesto de explícita reprovação e solta um inesperado desafio:
-E agora? Vamos brigar?
Disse me olhando com uma carranca que logo se desmanchou num sorriso fraterno. Estendeu-me a mão:
-Paz.
Retribui o cumprimento apertando-lhe a mão calejada:
-Paz, irmão.
Ele, uma típica figura do centro da cidade, insistiu:
-Pax.
E eu:
-Cuma?
-Pax é paz em italiano. Em inglês é piece.
Ficou um minuto em silêncio, ainda segurando minha mão:
-E em hebraico?
Insisti:
-Cuma?
-Como se diz paz em hebraico?

Desvencilhei-me de seu cumprimento sem sanar sua curiosidade. Desejei-lhe sorte e paz em português e tomei meu caminho, de certa forma, aliviado.

Imagina só o que deve ser aprender controle de constitucionalidade em hebraico?

6.2.07

E quer sentar na janela?

Manja o tipo geniozinho da sala? Aquele cara que saca toda a matéria, sempre responde a todas as perguntas e se antecipa às deduções? Lembra dessa figura? Usa óculos, é gordinho (e o pior é que não sou eu) e não traz em suas colocações um pingo de decoreba, só conhecimento. Se ligou? O cara é uns 80 kg distribuídos em um metro e sessenta e poucos de pura e absoluta inteligência.

Pois essa espécie de homo sapiens plus sapiens está fazendo aula comigo nessas manhãs quentes de verão. Todos os dias eu chego na sala, busco um lugar legal pra me sentar enquanto ele já está lá, pronto para mais um show de sapiência. Hoje fiquei pensando enquanto ele fazia uma pergunta super bem colocada ao Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo: esse cara devia fazer uma turnê mundial, realizando shows com seus neurônios super dotados. Eles dariam cambalhotas, voariam em trapézios, dariam saltos mortais e enfrentariam até o globo da morte, enquanto responderiam perguntas jurídicas. Tipo um circo de pulgas do Rui Barbosa.

Esse cara, o gordinho de óculos que não sou eu, é simpático, bem articulado e já desponta como o queridinho do professor, referência de toda a turma. Ele parece estar sempre pronto para uma colocação inteligente, sempre preparado para mais uma resposta que humilha a toda a sala, repleta de gente normal, pessoas simplesmente esforçadas que lutam para entender tudo aquilo. Gente como o gordinho de óculos aqui.

Enquanto isso, sentada na janela, está uma garota magra, de cabelos curtos e negros como seus olhos. Volta e meia ela traz a caneta Bic entre os lábios que parecem estar sempre sorrindo, aliás, um belo sorriso. Ela tem uma aliança no dedo e um nariz levemente arrebitado, um par de imensas argolas penduradas nas orelhas e o QI de uma ostra.

Ainda bem que ela esta nessa turma.