27.4.06

Banco Central eu nao presto.

Na secretaria, divido o balcão com a dona da calça que quase acabou com a aula de professor Viúvo do Bem. Ela lamenta a má sorte no último concurso que prestou e, com gestos rápidos e curtos, relata às amigas as dificuldades que encontrou na avaliação. É interrompida por uma delas:
-Qual o concurso?
-Banco Central, menina. Fui muito mal naquela prova...
Viro-me pra ela surpreso. Olho para suas calças, depois seu rosto, aprofundo-me em seus olhos e não digo:
-Mas com esse cofrinho?!

26.4.06

Bom dia.

Desço na Sé de costas para a Catedral. Passo rápido pelos meninos e meninas que despertam na praça entre os pés dos adultos, miseráveis ou não, que ali circulam àquela hora. Desvio de um “Compro Ouro” e ganho a Rua Direita. Pão de queijo a vinte e cinco centavos, cem cotonetes a um real, café, tapioca, coco verde, maçã, mamão, banana e mexerica, espalham-se sobre um chão forrado por DVDs, chinelinhos, cadarços de todas as cores, meias, CDs evangélicos e despertadores que tocam renitentes. Pessoas passam numa pressa sonolenta, envolvendo um grupo que discute a demissão do técnico do Palmeiras enquanto, em frente as portas cerradas de uma loja de calçados, aguardam por mais um expediente.

Logo que chego na Praça do Patriarca, avisto o Teatro Municipal. Não consigo deixar de imaginar os elegantes casais que ali se aglomeraram para assistir, em setembro de 1911, a inauguração do palco mais famoso de Sampa. Hamlet? Na verdade, não lembro e não me demoro na questão. Durante o Viaduto do Chá, minha atenção é roubada por uma senhora, de roupas afro-baianas, que joga os búzios e canta a sorte de uma pedestre de uniforme. Se em literatura eu ainda pensasse naquele instante, pensaria em Jorge Amado.

Barão de Itapetininga: advogados para causas trabalhistas, adolescentes de cabelos escorridos com camisas do Iron Maiden, currículos por um real, treze xerox pelo mesmo tanto e, alheios às ofertas tentadoras, homens se acotovelam em frente às manchetes penduradas nas bancas de jornal. Viro na Rua Nova Barão onde as lojas ainda estão fechadas mas a Copa do Mundo já se faz presente.

Pego a direita na Sete de Abril, atravesso-a para a Praça Dom José Gaspar e, lá em cima, o relógio acusa 7:53.

Ainda há tempo para um cafezinho.

21.4.06

Excremento da noite.

Em busca da ilegalidade redentora, encho meu copo com os amigos no bar.
De repente, um chinês do Ipiranga se levanta e diz, intrépido:
-Eu só trabalho com coisa suja e antiga.
E arremata:
-Sou um antiquário.

Naquele momento, eram desses ensinamentos que eu estava precisando.

SOS Direito Civil.

Duas fileiras a minha frente, sentou-se um grupo de três meninas e foi justamente a calça da mais bela que baixou um bom tanto quando ela se acomodou na carteira. A aula já havia começado e aquela extensa mostra da região localizada entre a cintura e o início no fim da curvatura bundal, apresentava-se absolutamente descoberta.

Sei que nem geografia, nem anatomia caem nos concursos que pretendo prestar. Porém, naquele momento, pareceu-me mais interessante tais matérias aos monótonos ensinamentos de professor Viúvo do Bem. A garota não se demorou a levantar a calça e quando o fez, cobriu-se por inteiro.

A aula estava salva.

18.4.06

Fora o baile.

Tenho muitas amigas: belas, lindas, lindíssimas e estupendas; trabalhadoras, descoladas, que fazem moda nas passarelas, ruas e, vejam vocês, até na praia; tem as casadas, as solteiras, as separadas, as santas e as do pau oco; tem as magras e boas, as com curvas estonteantes e as de beleza interior; tem as de cabelo curto, cumprido, as taradas e as paraquedistas; tem as de sorriso vasto e encantador, as que não perdem uma balada, as que não saem de casa e as resistentes a qualquer tempestade. Meus amigos não ficam atrás em sua diversidade: pretos, amarelos (às vezes são pretos e amarelos), brancos, cor de rosa, bêbedos, sóbrios, uns são feinhos, outros bem feios; tem boleiros, políticos, marqueteiros, butequeiros, publicitários, cabeçudos, espiões, argentinos de Santo André, baianos paulistas em Londres, pindamonhangabenses baianos, franceses do Ceará e manezinhos de Brasília; tem ranzinzas, engraçados, sábios, doidos e bestas. E foi um desses amigos que me indicou, há algumas semanas, uma empregada para por um pouco de ordem em meu humilde lar.

Com ela me deparei num dia em que, ávido por um arroz que não fosse o meu, cheguei da aula de Processo Penal com uma fome avassaladora.
-E aí minha querida, tudo bem?
-Tudo, respondeu-me sem me dirigir o olhar.

Tudo? Mesmo eu, que não sou lá muito esperto, percebi pelo seu olhar e timbre de voz que, tudo tudo não poderia estar assim, tão bem.

Sentei-me com um prato repleto de arroz e uma mistura qualquer, pensando no que poderia ter acontecido. Logo cheguei a óbvia e ululante conclusão:
-Essa mulher quebrou alguma coisa. Batata.
A dúvida não chegou a me perturbar.
-Seu Aléquisei?
Sorri, como se de nada soubesse:
-Oi?
Ela, visivelmente constrangida, demorou-se um pouco a dizer o que, de repente, soltou de uma forma enrolada, quase ébria:
-Seu professor de balé ligou.
-Como quié?
-É... ele ligou e pediu pra você ligar pra ele.
Disse isso olhando pro lado, com a humildade dos simples que tem, arraigados, costumes e hábitos tradicionais. Rapidamente, voltou-se para as roupas que passava com esmero, sem mais olhar para mim. Era como se ela não exigisse explicações, como se dissesse “tudo bem, tudo bem... mas que eu acho esquisito, isso eu acho”.

Havia ainda um restinho de arroz no prato e o Globo Esporte vivia seus momentos crepusculares, quando passei a mão pelo telefone.
Eu sabia quem era o tal professor de balé. Na verdade, tenho uns quatro ou cinco deles e logo liguei para a primeira figura que me ocorreu. Fui certeiro. Meu amigo, um especial, havia pregado um de seus trotes favoritos e, ao ouvir minha voz do outro lado da linha, soltou sua gargalhada estratosférica, inconfundível, contagiante.

O dia passou e quando a empregada se foi, despediu-se com um sorriso que tinha um pouco de vergonha e outro tanto de incredulidade. Quando entrou neste humilde lar, ela julgava trabalhar para um estudante comum de nome estranho. Um cara que, quem sabe, estudava para ser dotô.

Hoje, ela acha convicta que meu sobrenome tem algo de Barichimicóvi e que, em minha mochila, carrego sapatilhas e uma roupinha justa, talvez azul com lacinhos cor de rosa.

13.4.06

Revolução.

Enfim, o momento de esclarecer a dúvida que me consumiu durante toda a tarde de ontem. Aguardo pacientemente o professor resolver as dúvidas de uma japonesinha que senta nas primeiras carteiras. Ela está repleta de dúvidas que, certamente, são muito mais profundas que a minha.

Penso em voltar e me sentar, mas atrás de mim um calvo de cabelos grisalhos está a espreita. Não me mexo até que a japinha desvende todos os mistérios de sua apostila.

Finalmente, minha vez.

-Ah! O gabarito está errado.

Breve silêncio. Brevíssimo. E Bonzinho prosseguiu:

-Putiz... eu esqueci de avisar. A certa neste exercício é a C.

C de Cusão.

12.4.06

D de ditadura.

Fiz e refiz os cálculos, montei esquemas a juros comerciais, busquei inúmeras formas de resolver o impasse financeiro que se apresentava em minha apostila, repleta de exercícios amotinados, a espera de um deslize, de uma distração minha. Calculei aquele mesmo desconto por sete vezes. Em desespero, cheguei ao cúmulo de esboçar um gráfico no canto da página. Sete vezes. Soltei o lápis, espreguicei-me e tomei mais um gole d’água. Nas sete tentativas, encontrei o mesmo resultado: alternativa C.

Porém, o gabarito, alheio a minha luta, tinha uma visão do problema bem diferente e apontava, com um silêncio arrogante, a letra D como único caminho a ser trilhado.

Meus direitos eram totalmente ignorados por esta entidade autoritária que se fazia surda aos meus anseios e sonhos de um futuro melhor. Um futuro livre e cheio de esperança. Frente aquela espécie de Médici dos resultados da Matemática Financeira, recorri a uma velha companheira dos tresloucados tempos universitários e que hoje vive na clandestinidade de meus estudos: a calculadora.

Com ela, alcancei a assombrosa marca de nove tentativas. Não tentei a décima. Estava encurralado. Nem mesmo a calculadora, experiente militante nesse tipo de conflito, poderia me ajudar. Devolvi-a ao exílio de uma gaveta pouco utilizada.

De repente, eu estava num Estado de Sítio mental.

Levantei-me e, e juntando os cacos de minha soberania, encarei a apostila e mandei aquele o exercício à merda.

7.4.06

Fé.

Tenho um amigo que passou no último concurso para Auditor da Receita Federal. Trata-se de uma das carreiras públicas mais almejadas pelos concurseiros, inclusive este humilde subversivo que vos escreve. Em sua casa, ele me mostrava o arsenal de livros e apostilas que utilizou para se dar bem na prova:
–Todos foram muito importantes, mas o mais importante, o que mais me ajudou, foi este aqui.
E cerimoniosamente, mostrou-me um santinho, modesto e desbotado, de Santo Expedito.

Rimos.

Não sou de ficar pedindo coisas aos céus. Creio que o funcionalismo celestial já tem problemas demais para eu colocar minhas querelas em seus expedientes eternos. Porém, diante o depoimento deste meu amigo, trouxe da sala para meu quarto uma pequena imagem de São Francisco, presente de minha mãe, uma alegre devota do santo.

Vai que o velho Chico esteja de bobeira, né não?

6.4.06

Literatura do Trabalho.

Estudar Direito do Trabalho traz inúmeros desafios a minha modesta inteligência. São muitos detalhes, inúmeras exceções e outras tantas interpretações que empregados e empregadores têm à sua disposição. Mas, aos meus cansados olhos, o mais difícil é desvincular o que vi e vivi como trabalhador do mundo real daquilo que a lei prega em seus infinitos artigos, leis complementares, súmulas e incisos.

É como se, ao ler a Consolidação das Leis do Trabalho, eu estivesse com um romance do Sidney Sheldon em mãos.