18.12.07

No saco do Noel.

Pedi uma gramática de Natal. Meus pais agiram como se fosse uma coisa natural o filho, outrora festeiro incorrigível, pedir uma Gramática no Natal. Pediram-me detalhes sobre a obra para que pudessem comprar exatamente àquela que atendesse ao meu desejo estudantil. Meu pai ainda me olhou com um sorriso desconfiado, como se dissesse “você tem certeza, meu filho? Uma Gramática?”.

-Sim uma gramática. Vou dar uma pesquisada sobre alguns autores e em breve passo o pedido completo pra vocês, oká?

Dentre as milhares de desvantagens que acumulamos em ser adultos, ainda temos um ou outro aspecto que joga a nosso favor. O Natal, por exemplo, não nos traz mais toda aquela magia e felicidade, embrulhadas em papel de expectativa com fitas de ingenuidade. Mas em compensação, podemos negociar abertamente com nossos Papais Noéis de modo que tudo fique absolutamente claro. As listinhas de desejos depositadas na árvore natalina são substituídas pelo pedido fatal e inequívoco. Com o passar do tempo, os desejos se tornaram ordens. Mas voltemos a Gramática e a minha pesquisa, durante a qual obtive um conselho fantástico.

-Não compre uma Gramática nova. Use uma dessas Gramáticas antigas que você tem em sua casa. Aquelas do colegial, sabe?

Disse-me o professor de português e por isso digo que a advertência foi fantástica. Jamais imaginei que um professor de Língua Portuguesa me diria pra não comprar uma Gramática nova, mas sim utilizar aquela toda estropiada do colegial. Explicou-me que tudo o que eu precisava para me dar bem nas provas da língua pátria eram aulas, estudo sobre o material dado em sala, muitos exercícios e uma ou outra consulta extra-curso, as quais seriam plenamente satisfeitas na velha e boa Gramática do colegial.

E cá estou com uma Gramática de capa colorida, com meu nome escrito numa etiqueta junto ao 1º Colegial C, no capítulo das preposições. Folheando-a, sinto-me um arqueólogo de mim mesmo: a letra redondinha resolve exercícios, nos cantos das páginas encontro desenhos de baterias com dois bumbos, guitarras, do escudo tricolor que ainda não tinha as estrelas mundiais, nomes de bandas de rock e mais um sem número de testes feitos – que não eram da ESAF, FCC ou CESPE mas sim da FUVEST, UNICAMP e VUNESP.

Rapaz, um dia um soube disso tudo! Mas como hoje não sei? Será que os mestres eram ruins ou o aluno um medíocre decorador?

Sei que nessas mudei meu pedido que nada mais tem a ver com uma obra de estudo. É como se de repente eu voltasse a ser criança e pedisse algo não tão utilitário, mas sim divertido. Meu presente será um livro, mas soa como uma bola de capotão Kichute número 4, daquelas que motivava grandes clássicos de minha rua. Pelejas imortais, avassaladoras, que nos roubava até o último suspiro antes do fim das férias.

Quando refiz meu pedido, percebi um certo alívio no sorriso de meus pais. Minha mãe me abraçou fraternalmente e meu pai me ofereceu uma cerveja, que vou tomar logo depois que terminar uma bateria de exercícios sobre crase.

E feliz Natal.