25.2.08

No metrô – Duro de aguentar.

A pilha do meu i-pod genérico havia acabado há duas estações quando ela entrou no metrô, na estação Liberdade, com dois colegas. Eu não tinha nada pra ler no caminho, salvo meu caderno e um exemplar da Constituição Federal, de modo que preferi vir ouvindo a conversa dos outros a me entregar à leitura. De leis e teorias eu já havia tido o suficiente para uma quarta-feira.

Logo um assento vagou ao meu lado e ela o dominou, tão rápido quanto sua língua que esbanjava preparo físico àquela hora da noite. Com que vigor reclamava de tudo! Talvez por isso tinha os olhos tristes e uma postura curvada, como se carregasse um enorme peso sobre as costas franzinas. Quando ela se acomodou no assento, já descascava o prefeito. Depois, veio a ex-prefeita, os telefones celulares, os bares da Vila Madalena, os motoboys, o Arnaldo Antunes, o Lost, a insegurança que não permitia que ela pudesse caminhar do ponto de ônibus até a sua casa com tranqüilidade, a mulher do cafezinho lá da firma, os cobradores de ônibus e os Racionais MCs e suas gírias suburbanas. E por falar em suburbana, perguntou se os amigos conheciam a namoradinha do Armando.

-Não.

Não? Nem ela. Mas isso não a impediu de descascar a tal moça que vivia lá na Zona Leste.

-Imagina o naipe, né?

Sei que o Armando trabalhava das 8 da matina às 19:30, quando todos saíam as 20h. E, se o Armando trabalhava só 10 horas e meia por dia era porque ia buscar sua pequena na faculdade. Enquanto a moça cacetava o pobre apaixonado, eu imaginava o velho e bom Armandão atravessando a cidade, feliz da vida, para ir buscar sua namorada. Pegava-a na faculdade e a levava pra casa, ouvindo as novidades e roubando-lhe beijos entre um e outro sinal vermelho. Entregava a garota no portão de sua casa simples, dava-lhe mais uns beijinhos, uns apertos, fazia juras de amor e voltava, já transbordando de saudades antes mesmo de chegar ao seu carro.

-Ele tá pensando o que? Que sai cedo todo dia, como se a firma fosse dele? Pensa que está numa repartição pública? Quer moleza, vai ser funcionário público, pô!

Agüentei calado aquela declaração que ardeu-me como um tapa na cara. Dizer o que? Eu estava cansado pra discussões. Mas não ela para cornetar. E assim chegou a vez do bruxinho camarada Harry Porter. Se o livro já era um lixo, o filme então nem se fala. Meu Deus! Como uma mãe pode deixar um filho ler um negócio daqueles. Pior é dizer que aquele filme é legal. Não dá, né? E por falar em filme, perguntou aos amigos, com um sorrisinho de desprezo, se eles haviam visto Duro de Matar 4. Quatro ponto zero.

-Não.

Pois não haviam perdido nada. Aquilo era uma merda, com o perdão da palavra. Meu Deus, como alguém pode ver aquilo e gostar? Ela foi, viu sim, mas foi praticamente obrigada pelo irmão. Saiu do cinema com vontade de exigir seu dinheiro de volta. Nem a pipoca prestou. Aquele Bruce Willis tinha mais era que se aposentar e o seu personagem era uma porcaria, um enlatado americano nojento desses que não valem um tostão furado. Mas qual era mesmo o nome daquele policial idiota?

-John McLane, respondi levantando-me para descer. John McLane, moça. E saiba que se houvesse um John McLane no seu bairro, um só, você poderia descer do ponto de ônibus e caminhar até a sua casa com absoluta segurança, mesmo que carregasse nessa sua bolsa surrada 6 milhões de dólares. E se John McLane trabalhasse em Sampa, talvez hoje você não passasse por nove estações de metrô metendo a boca em tudo que é ser vivo deste planeta.

Saí sem ouvir sua resposta ou saber se houve alguma. Falar mal de servidor público, tudo bem. Mas de John McLane ninguém fala mal e sai impune pra contar.

Ninguém.

18.2.08

No metrô – turma de exercícios.

O trem demorou a chegar, provocando um pequeno tumulto na porta do vagão. Nada muito desesperador se comparado a Estação Sé, por volta das 18:30. Mas aquele pequeno aglomerado me causou um certo desconforto. Devo estar ficando, de fato, velho para multidões.

Uma garota desesperada por um assento passou por todos sem fazer cerimônia alguma em ocupar um assento cinza reservado aos idosos, grávidas, deficientes e fudidos em geral. Eu me arrumei num canto, aumentei o som do meu I-Pod genérico e viajei, estação após estação, em nada. Creio que nenhum pensamento consistente me passou pela cabeça. Cheguei a esboçar um movimento pra retirar a Constituição da mochila e dar uma olhada num artigo qualquer, mas tal pensamento não chegou a ser levado a sério pelo meu cérebro. Não fazer nada já estava de bom tamanho.

Chegamos à Liberdade e mais gente embarcou, apertando ainda mais as pessoas no vagão. No assento cinza, a garota não parecia mais desesperada. Aliás, estava muito tranqüila lendo um livro qualquer. Não consegui ler o título da obra, mas troquemos o livro por uma revista vagabunda de fofoca e temos aí a vilã ideal: sem escrúpulos ou senso de cidadania, essa alienada tomou o lugar de uma velhinha cansada, deixando a pobre ansiã pendurada à sua frente, sofrendo em suas varizes tão abundantes quanto os rios numa carta hidrográfica amazônica.

Maldita garota!

E pra ela eu olhava com desprezo quando me dei conta que havia esquecido a borracha em cima da mesa da sala, no meio dos meus rascunhos de exercícios de Contabilidade.

Naquele dia, eu não poderia errar.