No metrô – Duro de aguentar.
A pilha do meu i-pod genérico havia acabado há duas estações quando ela entrou no metrô, na estação Liberdade, com dois colegas. Eu não tinha nada pra ler no caminho, salvo meu caderno e um exemplar da Constituição Federal, de modo que preferi vir ouvindo a conversa dos outros a me entregar à leitura. De leis e teorias eu já havia tido o suficiente para uma quarta-feira.
Logo um assento vagou ao meu lado e ela o dominou, tão rápido quanto sua língua que esbanjava preparo físico àquela hora da noite. Com que vigor reclamava de tudo! Talvez por isso tinha os olhos tristes e uma postura curvada, como se carregasse um enorme peso sobre as costas franzinas. Quando ela se acomodou no assento, já descascava o prefeito. Depois, veio a ex-prefeita, os telefones celulares, os bares da Vila Madalena, os motoboys, o Arnaldo Antunes, o Lost, a insegurança que não permitia que ela pudesse caminhar do ponto de ônibus até a sua casa com tranqüilidade, a mulher do cafezinho lá da firma, os cobradores de ônibus e os Racionais MCs e suas gírias suburbanas. E por falar em suburbana, perguntou se os amigos conheciam a namoradinha do Armando.
-Não.
Não? Nem ela. Mas isso não a impediu de descascar a tal moça que vivia lá na Zona Leste.
-Imagina o naipe, né?
Sei que o Armando trabalhava das 8 da matina às 19:30, quando todos saíam as 20h. E, se o Armando trabalhava só 10 horas e meia por dia era porque ia buscar sua pequena na faculdade. Enquanto a moça cacetava o pobre apaixonado, eu imaginava o velho e bom Armandão atravessando a cidade, feliz da vida, para ir buscar sua namorada. Pegava-a na faculdade e a levava pra casa, ouvindo as novidades e roubando-lhe beijos entre um e outro sinal vermelho. Entregava a garota no portão de sua casa simples, dava-lhe mais uns beijinhos, uns apertos, fazia juras de amor e voltava, já transbordando de saudades antes mesmo de chegar ao seu carro.
-Ele tá pensando o que? Que sai cedo todo dia, como se a firma fosse dele? Pensa que está numa repartição pública? Quer moleza, vai ser funcionário público, pô!
Agüentei calado aquela declaração que ardeu-me como um tapa na cara. Dizer o que? Eu estava cansado pra discussões. Mas não ela para cornetar. E assim chegou a vez do bruxinho camarada Harry Porter. Se o livro já era um lixo, o filme então nem se fala. Meu Deus! Como uma mãe pode deixar um filho ler um negócio daqueles. Pior é dizer que aquele filme é legal. Não dá, né? E por falar em filme, perguntou aos amigos, com um sorrisinho de desprezo, se eles haviam visto Duro de Matar 4. Quatro ponto zero.
-Não.
Pois não haviam perdido nada. Aquilo era uma merda, com o perdão da palavra. Meu Deus, como alguém pode ver aquilo e gostar? Ela foi, viu sim, mas foi praticamente obrigada pelo irmão. Saiu do cinema com vontade de exigir seu dinheiro de volta. Nem a pipoca prestou. Aquele Bruce Willis tinha mais era que se aposentar e o seu personagem era uma porcaria, um enlatado americano nojento desses que não valem um tostão furado. Mas qual era mesmo o nome daquele policial idiota?
-John McLane, respondi levantando-me para descer. John McLane, moça. E saiba que se houvesse um John McLane no seu bairro, um só, você poderia descer do ponto de ônibus e caminhar até a sua casa com absoluta segurança, mesmo que carregasse nessa sua bolsa surrada 6 milhões de dólares. E se John McLane trabalhasse em Sampa, talvez hoje você não passasse por nove estações de metrô metendo a boca em tudo que é ser vivo deste planeta.
Saí sem ouvir sua resposta ou saber se houve alguma. Falar mal de servidor público, tudo bem. Mas de John McLane ninguém fala mal e sai impune pra contar.
Ninguém.
Logo um assento vagou ao meu lado e ela o dominou, tão rápido quanto sua língua que esbanjava preparo físico àquela hora da noite. Com que vigor reclamava de tudo! Talvez por isso tinha os olhos tristes e uma postura curvada, como se carregasse um enorme peso sobre as costas franzinas. Quando ela se acomodou no assento, já descascava o prefeito. Depois, veio a ex-prefeita, os telefones celulares, os bares da Vila Madalena, os motoboys, o Arnaldo Antunes, o Lost, a insegurança que não permitia que ela pudesse caminhar do ponto de ônibus até a sua casa com tranqüilidade, a mulher do cafezinho lá da firma, os cobradores de ônibus e os Racionais MCs e suas gírias suburbanas. E por falar em suburbana, perguntou se os amigos conheciam a namoradinha do Armando.
-Não.
Não? Nem ela. Mas isso não a impediu de descascar a tal moça que vivia lá na Zona Leste.
-Imagina o naipe, né?
Sei que o Armando trabalhava das 8 da matina às 19:30, quando todos saíam as 20h. E, se o Armando trabalhava só 10 horas e meia por dia era porque ia buscar sua pequena na faculdade. Enquanto a moça cacetava o pobre apaixonado, eu imaginava o velho e bom Armandão atravessando a cidade, feliz da vida, para ir buscar sua namorada. Pegava-a na faculdade e a levava pra casa, ouvindo as novidades e roubando-lhe beijos entre um e outro sinal vermelho. Entregava a garota no portão de sua casa simples, dava-lhe mais uns beijinhos, uns apertos, fazia juras de amor e voltava, já transbordando de saudades antes mesmo de chegar ao seu carro.
-Ele tá pensando o que? Que sai cedo todo dia, como se a firma fosse dele? Pensa que está numa repartição pública? Quer moleza, vai ser funcionário público, pô!
Agüentei calado aquela declaração que ardeu-me como um tapa na cara. Dizer o que? Eu estava cansado pra discussões. Mas não ela para cornetar. E assim chegou a vez do bruxinho camarada Harry Porter. Se o livro já era um lixo, o filme então nem se fala. Meu Deus! Como uma mãe pode deixar um filho ler um negócio daqueles. Pior é dizer que aquele filme é legal. Não dá, né? E por falar em filme, perguntou aos amigos, com um sorrisinho de desprezo, se eles haviam visto Duro de Matar 4. Quatro ponto zero.
-Não.
Pois não haviam perdido nada. Aquilo era uma merda, com o perdão da palavra. Meu Deus, como alguém pode ver aquilo e gostar? Ela foi, viu sim, mas foi praticamente obrigada pelo irmão. Saiu do cinema com vontade de exigir seu dinheiro de volta. Nem a pipoca prestou. Aquele Bruce Willis tinha mais era que se aposentar e o seu personagem era uma porcaria, um enlatado americano nojento desses que não valem um tostão furado. Mas qual era mesmo o nome daquele policial idiota?
-John McLane, respondi levantando-me para descer. John McLane, moça. E saiba que se houvesse um John McLane no seu bairro, um só, você poderia descer do ponto de ônibus e caminhar até a sua casa com absoluta segurança, mesmo que carregasse nessa sua bolsa surrada 6 milhões de dólares. E se John McLane trabalhasse em Sampa, talvez hoje você não passasse por nove estações de metrô metendo a boca em tudo que é ser vivo deste planeta.
Saí sem ouvir sua resposta ou saber se houve alguma. Falar mal de servidor público, tudo bem. Mas de John McLane ninguém fala mal e sai impune pra contar.
Ninguém.
