Coleguinhas.
Ontem, domingão em que o tricolor paulista mostrou ao dos pampas quem é de fato o Imortal, tive aula de Direito Tributário. Não vou me queixar por dois motivos simples: um é que já me acostumei com essa história de trocar divertimento pelo estudo e outro é que eu não seria desavergonhado a tal ponto que reclamaria da vida pra quem me lê em plena segunda-feira. E, se dois motivos são poucos para que eu não me queixe, vai aí um terceiro: se tá no inferno, malandrão, tem mais é que abraçar o capeta. E vamos em frente.
Se abri mão de meu direito ao protesto, também não saí por aí assoviando melodias alegres e dando saltos festivos enquanto ia pra aula. Não festejei o domingo tributário que despontava no horizonte e jamais imaginei que alguém pudesse promover tal comemoração. Mas no mundão, as coisas nunca são assim tão óbvias e, antes das nove da matina, uma garota se senta numa carteira da frente e filosofa:
-Eu gosto de ter aulas no fim de semana. Acho que aproveito mais, não sei. Desde criança, sempre gostei de estudar nos finais de semana.
Ri achando que a moça fazia graça e ainda com o gosto da pasta de dentes na boca, embalei na conversa em ritmo de piada. Mas fui logo cortado pelo seu tom de voz sério e o olhar nostálgico que fitava a lousa ainda sem quaisquer escritos:
-Quando criança odiava a sexta-feira. Ficar dois dias sem ir a escola era um senhor sacrifício pra mim, sabe? Além de não ver os amiguinhos, eu sempre gostei de estudar, de ter aulas.
Foi inevitável eu comparar minha infância descalça e em fuga do colégio com a daquela moça de vestes sóbrias e português refinado. Senti-me, a princípio, um brutal ignorante, um sujeito rasteiro e sem futuro. Cheguei a recriminar meus pais por jamais terem posto em minhas mãos adaptações dos clássicos de Monteiro Lobato voltados para o mundo jurídico. Ao invés de me darem bolas de capotão pra eu correr atrás, deveriam ter me presenteado com As Aventuras de Pedrinho no Mundo da Tributação ou com As Taxas de Emília ou ainda com Sonegações Fiscais da Cuca.
Assim, triste e cabisbaixo, passei a meia hora inicial da aula, sentindo-me um completo alienado. Foi quando entrou uma outra garota na sala. Atrasada, ela trazia na cara a desfaçatez da balada que obviamente havia terminado há algumas poucas horas. Sentou-se ao meu lado, jogou a bolsa no chão e antes de colocar o caderno sobre a carteira, cochichou com uma leve rouquidão:
-Cara, eu ainda tô chapada do Rock and Roll de ontem. Caceta!
Abri o maior sorriso do mundo pra ela, que ficou sem entender o profundo abraço de agradecimento que lhe dei enquanto o Código Tributário Nacional era esmiuçado na lousa azul iluminada por lâmpadas fosforescentes.
Se abri mão de meu direito ao protesto, também não saí por aí assoviando melodias alegres e dando saltos festivos enquanto ia pra aula. Não festejei o domingo tributário que despontava no horizonte e jamais imaginei que alguém pudesse promover tal comemoração. Mas no mundão, as coisas nunca são assim tão óbvias e, antes das nove da matina, uma garota se senta numa carteira da frente e filosofa:
-Eu gosto de ter aulas no fim de semana. Acho que aproveito mais, não sei. Desde criança, sempre gostei de estudar nos finais de semana.
Ri achando que a moça fazia graça e ainda com o gosto da pasta de dentes na boca, embalei na conversa em ritmo de piada. Mas fui logo cortado pelo seu tom de voz sério e o olhar nostálgico que fitava a lousa ainda sem quaisquer escritos:
-Quando criança odiava a sexta-feira. Ficar dois dias sem ir a escola era um senhor sacrifício pra mim, sabe? Além de não ver os amiguinhos, eu sempre gostei de estudar, de ter aulas.
Foi inevitável eu comparar minha infância descalça e em fuga do colégio com a daquela moça de vestes sóbrias e português refinado. Senti-me, a princípio, um brutal ignorante, um sujeito rasteiro e sem futuro. Cheguei a recriminar meus pais por jamais terem posto em minhas mãos adaptações dos clássicos de Monteiro Lobato voltados para o mundo jurídico. Ao invés de me darem bolas de capotão pra eu correr atrás, deveriam ter me presenteado com As Aventuras de Pedrinho no Mundo da Tributação ou com As Taxas de Emília ou ainda com Sonegações Fiscais da Cuca.
Assim, triste e cabisbaixo, passei a meia hora inicial da aula, sentindo-me um completo alienado. Foi quando entrou uma outra garota na sala. Atrasada, ela trazia na cara a desfaçatez da balada que obviamente havia terminado há algumas poucas horas. Sentou-se ao meu lado, jogou a bolsa no chão e antes de colocar o caderno sobre a carteira, cochichou com uma leve rouquidão:
-Cara, eu ainda tô chapada do Rock and Roll de ontem. Caceta!
Abri o maior sorriso do mundo pra ela, que ficou sem entender o profundo abraço de agradecimento que lhe dei enquanto o Código Tributário Nacional era esmiuçado na lousa azul iluminada por lâmpadas fosforescentes.

1 Comments:
Faaaaaaaaaaaaaaaala.
Aqui é o Rubens, redator, que trabalhou com você na Sun. A última vez que a gente se trombou foi umas 3h da matina, num boteco de esquiina (bela rima), na Vila (outra rima) Madalena. Quem me passou o linkdo seu Blog foi o Marcio Zechetto (Marcião, ou Jhon Locke do Lost). Ele está trabalhando comigo na Fábrica. Tô escrevendo só pra dizer que já ri pacas com as coisas que você escreveu aqui. Um desperdício perder um redator tão bom, para um Governo que não merece. Pelo menos, eles que encham os seus bolsos.
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