1.8.07

Pelas barbas do profeta.

Falta pouco menos de dois meses para minha prova. Digo minha mesmo sendo ela coisa pública por uma simples e fatal razão: é a primeira vez que vou prestar um concurso com reais chances de êxito. Isso não quer dizer que eu esteja num clima de já ganhou, com a bola na cal me dizendo “me chuta, me chuta, me chuta” enquanto das cabines imaculadas do Olimpo do jornalismo esportivo, Galvão (o Bueno, não o Frei) berra frases eufóricas, carregadas de um amor patriótico tão inflamado quanto pequenininho. Nada disso. Pra ser sincero, tô meio com medo. O tempo passa e o frio na barriga aumenta, situação térmica agravada pelo inverno que vem assolando a Paulicéia. Nos últimos dias minha pança está se tornando um iceberg, mas um iceberg às avessas: a maior parte fica sobre a superfície pra todo mundo ver.

Com a aproximação da prova o ritmo de estudo aumenta e as horas ficam mais curtas. Tempo não é mais dinheiro (se é que um dia esse ditado financeiro valeu um tostão furado pra mim), mas é leitura. Gasto meus minutos entre páginas de livros e apostilas, rascunhos e resumos, exercícios de provas passadas que busco alucinadamente pela Internet.

Nessas, não sei se por sorte ou por desleixo, perdi minha agenda de telefones. Fiquei incomunicável visto que nos últimos tempos, salvo minha mãe, ninguém liga pra mim. Ligar pra que? O cara não sai, o cara não fica, o cara só fala em concurso, o cara só tem olhos pra esse troço, o cara não é mais aquele velho e bom Alexei, pois então que passe logo essa fase, é ou não é? E é. Então, aproveitei o sumiço da agendinha pra não mais procurar ninguém e ficar totalmente focado nos estudos. Se pouquíssimos me ligavam, agora eu é que não ligo. Sim senhor, sim senhora, estudar sem interferências do mundo externo. O Lula tomou uma vaia retumbante, um avião caiu perto de casa, a seleção brasileira virou um escrete de mulheres, o Brasil não alcançou Cuba, Ingmar Bergman morreu, o Jader é pai da gostosinha que não serve pra garota de programa e eu só ouço aulas de informática, vejo outras de Direito e leio estratégias de Recursos Humanos.
E vamos que vamos.

Sei que quando ninguém mais me ligava, liga meu irmão:
-Cara, você viu que saiu o edital do concurso do TCU?
Eu tinha visto mas as carreiras eram pra lá de surreais. Tudo bem, eu não tenho medo de trabalho e o que me derem pra fazer eu faço e faço bem. Nem tudo, sacanas, nem tudo, mas boa parte das coisas. Porém ali, naquele edital, tinha coisas fantasmagóricas e acabei por não me interessar muito.
-Mas cara, tem uma carreira que é de Recursos Humanos e a matéria é a mesma que você tá estudando.
Cuma? A mesma? Sério? Se for a mesma, fechou. Duas chances, melhor, muito melhor que uma. Mas escaldado que sou com a sorte que quando me sorri está sempre cheia de graça, quis saber se de fato a matéria era a mesma.
-Quase a mesma, né? Ou você pensa o quê, bichão?
Não pensei nada e fui conferir o tal edital do TCU. Descobri então que há mesmo uma carreira que dá pra encarar e que é de Recursos Humanos. Mas soube também que esse “quase” equivale a um Ulysses de Joyce e que a prova será duas exatas semanas depois da “minha” prova. A sorte não sorria, mas ria de mim. De novo.

Curioso é que depois do edital do TCU, passei a ouvir alguém narrando os acontecimentos desta minha peleja enquanto a bola está sendo disputada lá no meio do campo. Mas o dono da voz, agora divertida, não é o Galvão.
É o Silvio Luís.