8.3.07

O “p” não é meu.

Não sei bem em qual dos mistérios de Agatha Christie que me envolvi na adolescência, havia na cena do crime um bilhete supostamente escrito pelo próprio assassino. A polícia pegou o manuscrito, listou alguns suspeitos, comparou suas caligrafias com os garranchos do tal bilhete e vo-a-lá: encontraram o assassino. Então, Hercule Poirot contrariou o óbvio e apontou uma senhora, até então insuspeitíssima, como assassina.
-Mas por quê?, perguntaram todos.
-Simples, disse o perspicaz detetive belga enquanto cofiava as pontas de seu bigode: o seu suspeito escreve o P maísculo desta forma e aqui, está escrito de outro jeito. É muito difícil alguém ter duas caligrafias para a mesma letra.
Todos os queixos caíram e ele acusou a bondosa velhinha que, além de assassina, mostrou-se uma péssima falsificadora.

De todos os livros de Agatha Christie que li, este foi o único cujo desfecho não me convenceu e o motivo é simples: eu tenho duas grafias para várias letras. Jota, agá, a, eme, ene, érre e mais algumas, inclusive o pê. Eu escrevo o pê assim hoje, assado amanhã e nunca matei ninguém.

Não sei bem porque essa história entrou na conversa que tive com um amigo enquanto tomávamos um café na padoca do japonês, numa breve visita que o figura me fez por estes dias. Mas o fato é que entrou, foi se espalhando e quando percebi, ela estava sentadona no sorriso desconfiado do meu amigo.
-Você, hein?
-Cuma?
-Com toda essa cultura, quando estiver no governo, você vai fazer a festa, hein?
Puxou o guardanapo e tirou do bigode por fazer alguns farelos de pão:
-Esse despiste é bom, mano. Muito bom.
Acendeu um cigarro:
-Muito bom mesmo.
-Cuma?
-Vais falsificar altos documentos, hein malandro? Arrumar notas frias... viche! Tô até vendo...
Deu-me dois ou três tapas nas costas e concluiu:
-Você vai longe, malandro.
Rimos e assim, falando groselhas desse tipo, chegamos ao caixa onde o japonês, sempre sorridente, aguardava nosso dinheiro.
-Paga a conta aqui que eu não conto nada pra ninguém, disse meu amigo.
-Cuma?
-Não se finge de besta que você me entendeu.

Eu nem aprendi contabilidade direito e já tem neguinho querendo tirar casquinha.

1 Comments:

Blogger Fábio Rosé said...

Fragmental eu sou.
Ri pacas.
Abs
FR

4:22 PM  

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