Fora o baile.
Tenho muitas amigas: belas, lindas, lindíssimas e estupendas; trabalhadoras, descoladas, que fazem moda nas passarelas, ruas e, vejam vocês, até na praia; tem as casadas, as solteiras, as separadas, as santas e as do pau oco; tem as magras e boas, as com curvas estonteantes e as de beleza interior; tem as de cabelo curto, cumprido, as taradas e as paraquedistas; tem as de sorriso vasto e encantador, as que não perdem uma balada, as que não saem de casa e as resistentes a qualquer tempestade. Meus amigos não ficam atrás em sua diversidade: pretos, amarelos (às vezes são pretos e amarelos), brancos, cor de rosa, bêbedos, sóbrios, uns são feinhos, outros bem feios; tem boleiros, políticos, marqueteiros, butequeiros, publicitários, cabeçudos, espiões, argentinos de Santo André, baianos paulistas em Londres, pindamonhangabenses baianos, franceses do Ceará e manezinhos de Brasília; tem ranzinzas, engraçados, sábios, doidos e bestas. E foi um desses amigos que me indicou, há algumas semanas, uma empregada para por um pouco de ordem em meu humilde lar.
Com ela me deparei num dia em que, ávido por um arroz que não fosse o meu, cheguei da aula de Processo Penal com uma fome avassaladora.
-E aí minha querida, tudo bem?
-Tudo, respondeu-me sem me dirigir o olhar.
Tudo? Mesmo eu, que não sou lá muito esperto, percebi pelo seu olhar e timbre de voz que, tudo tudo não poderia estar assim, tão bem.
Sentei-me com um prato repleto de arroz e uma mistura qualquer, pensando no que poderia ter acontecido. Logo cheguei a óbvia e ululante conclusão:
-Essa mulher quebrou alguma coisa. Batata.
A dúvida não chegou a me perturbar.
-Seu Aléquisei?
Sorri, como se de nada soubesse:
-Oi?
Ela, visivelmente constrangida, demorou-se um pouco a dizer o que, de repente, soltou de uma forma enrolada, quase ébria:
-Seu professor de balé ligou.
-Como quié?
-É... ele ligou e pediu pra você ligar pra ele.
Disse isso olhando pro lado, com a humildade dos simples que tem, arraigados, costumes e hábitos tradicionais. Rapidamente, voltou-se para as roupas que passava com esmero, sem mais olhar para mim. Era como se ela não exigisse explicações, como se dissesse “tudo bem, tudo bem... mas que eu acho esquisito, isso eu acho”.
Havia ainda um restinho de arroz no prato e o Globo Esporte vivia seus momentos crepusculares, quando passei a mão pelo telefone.
Eu sabia quem era o tal professor de balé. Na verdade, tenho uns quatro ou cinco deles e logo liguei para a primeira figura que me ocorreu. Fui certeiro. Meu amigo, um especial, havia pregado um de seus trotes favoritos e, ao ouvir minha voz do outro lado da linha, soltou sua gargalhada estratosférica, inconfundível, contagiante.
O dia passou e quando a empregada se foi, despediu-se com um sorriso que tinha um pouco de vergonha e outro tanto de incredulidade. Quando entrou neste humilde lar, ela julgava trabalhar para um estudante comum de nome estranho. Um cara que, quem sabe, estudava para ser dotô.
Hoje, ela acha convicta que meu sobrenome tem algo de Barichimicóvi e que, em minha mochila, carrego sapatilhas e uma roupinha justa, talvez azul com lacinhos cor de rosa.
Com ela me deparei num dia em que, ávido por um arroz que não fosse o meu, cheguei da aula de Processo Penal com uma fome avassaladora.
-E aí minha querida, tudo bem?
-Tudo, respondeu-me sem me dirigir o olhar.
Tudo? Mesmo eu, que não sou lá muito esperto, percebi pelo seu olhar e timbre de voz que, tudo tudo não poderia estar assim, tão bem.
Sentei-me com um prato repleto de arroz e uma mistura qualquer, pensando no que poderia ter acontecido. Logo cheguei a óbvia e ululante conclusão:
-Essa mulher quebrou alguma coisa. Batata.
A dúvida não chegou a me perturbar.
-Seu Aléquisei?
Sorri, como se de nada soubesse:
-Oi?
Ela, visivelmente constrangida, demorou-se um pouco a dizer o que, de repente, soltou de uma forma enrolada, quase ébria:
-Seu professor de balé ligou.
-Como quié?
-É... ele ligou e pediu pra você ligar pra ele.
Disse isso olhando pro lado, com a humildade dos simples que tem, arraigados, costumes e hábitos tradicionais. Rapidamente, voltou-se para as roupas que passava com esmero, sem mais olhar para mim. Era como se ela não exigisse explicações, como se dissesse “tudo bem, tudo bem... mas que eu acho esquisito, isso eu acho”.
Havia ainda um restinho de arroz no prato e o Globo Esporte vivia seus momentos crepusculares, quando passei a mão pelo telefone.
Eu sabia quem era o tal professor de balé. Na verdade, tenho uns quatro ou cinco deles e logo liguei para a primeira figura que me ocorreu. Fui certeiro. Meu amigo, um especial, havia pregado um de seus trotes favoritos e, ao ouvir minha voz do outro lado da linha, soltou sua gargalhada estratosférica, inconfundível, contagiante.
O dia passou e quando a empregada se foi, despediu-se com um sorriso que tinha um pouco de vergonha e outro tanto de incredulidade. Quando entrou neste humilde lar, ela julgava trabalhar para um estudante comum de nome estranho. Um cara que, quem sabe, estudava para ser dotô.
Hoje, ela acha convicta que meu sobrenome tem algo de Barichimicóvi e que, em minha mochila, carrego sapatilhas e uma roupinha justa, talvez azul com lacinhos cor de rosa.

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