4.4.07

Chocolates.

Certa vez, um amigo esbarrou numa encenação da Paixão de Cristo enquanto levava sua filha duns seis anos de um lugar para outro da velha e boa Jaú. Diante a insistência da pequena em assistir o drama, parou, cruzou os braços e pousou de espectador. Cabe aqui dizer que se trata de um ateu que não contente em nada crer, pratica sua descrença. Entediado ao que aos seus olhos é uma tremenda palhaçada, ele aguardava ansioso o fim do espetáculo para que pudesse, ao lado da filha, seguir seu caminho.
No final, na crucificação do Nazareno, percebendo a filha triste com história tão trágica, ele a toma nos braços, beija seu rosto angelical e profere com autoridade:
-Não fica triste não, filha. No ano que vem Ele está aí de novo.

Um outro amigo, este mineiro, contou que em sua cidade no interior do Estado, designaram para os papéis de Jesus e um dos guardas da escolta romana, dois desafetos. O guarda, aproveitando-se da situação, não hesitou em açoitar com uma raiva pagã a inimizade que levava a cruz nos ombros. Depois de tanto apanhar, o Cristo de Minas tirou da cara a feição serena que a tudo perdoa, deixou a cruz de lado e partiu pra pancadaria.

Eu também tenho uma história de Páscoa. Certa vez, há muitos anos, fomos a Macatuba ver a encenação da crucificação. Meu avô que hoje toma suas brejas com Poy, Leônidas, Telê Santana e seu Anselmo lá no andar de cima, queria ver essa que parecia ser a grande dramatização da Paixão de Cristo do interior paulista. Foi uma merda. Tinha muita gente, nós nos perdemos de meu avô e tudo que eu me lembro era de um fox paulistinha que ficava em pé ao lado do seu dono enquanto esse, uma besta endinheirada, filmava a toda aquela porcaria com ares de Fellini.
Neste ano, não terá encenação. Vou pra Jaú levando na mala a Constituição Federal e uns exercícios de Contabilidade. E pensar que Macatuda já foi roubada na Páscoa...