19.12.06

Vou sair pela entrada.

Esta é a época do ano que mais mexe com meu espírito errante. Tudo conspira a favor de happy hours deliciosos e infinitos, nos botequins magníficos de minha amada Paulicéia Desvairada. É difícil permanecer imune ao clima de dezembro. Todo mundo quer se ver, todo mundo quer se reencontrar antes que mais um ano acabe. E dá-lhe cerveja!

Sou esforçado, mas não sou um herói da resistência (Camila-ô-Camila). Não sou capaz, eu sei, de ficar recusando convites pra tomar uma aqui, outra acolá.
Em fuga, busquei refúgio na casa de meus pais, aqui na pacata e bela Jaú de minha infância. Deixei Sampa e os convites pecaminosos de dezembro pra trás, rumo a pureza e inocência árcade do interior do Estado.

E cá estou as voltas com uma tradição familiar. Quando o relógio acusa quase 11 da matina, pouco antes, jamais depois, ouço um som familiar vindo lá da cozinha - aquele barulhinho inconfundível de uma lata de cerveja sendo aberta. Minha boca transborda d’água. Toda manhã meu pai toma sua gelada conforme sempre me ensinaram na família:

-O melhor horário pra se tomar a primeira cerveja do dia é entre às 10:30 e às 11 horas da manhã.

Agora, com o Código Tributário Nacional na minha frente, ouço o som da tentação vindo da cozinha. Ele soa como o cantar duma sereia nessa manhã jauense de sol e calor. Lembro-me de um trabalho de educação artística que fiz para colégio, nessa mesma mesa, quando tive que desenhar Iara, a sereia amazônica que enfeitiçava indíos e cara-pálidas com seu canto.

Aqui não há vitórias-régias ou pororocas. Mas há, eu sei, uma cerveja aberta lá na cozinha, donde vem uma melodia encher minha alma de tentação:

-AH! Que delícia!

Volto aos estudos, passo os olhos pelas formas de extinção de crédtio tributário mas sou logo interrompido por uma voz conhecida. Uma voz que sempre soou em minha vida como um princípío de sabedoria, de responsabilidade, de segurança, de amizade e amor:

-Vai uma gelada aí, filhão?

Não adianta: dezembro é dezembro em tudo que é lugar.