Obrigado, foi engano.
No banheiro, leio com uma calma campestre, a Constituição Federal. Então, de repente, a uma distância infinita de mim e da Carta Magna, um barulho fatal arranca-me do sossego com a força de quem toma uma Bastilha: o toque do telefone.
Exaspero-me e em poucos segundos estou em pé, rumo a sala, sem ter confundido o papel higiênico com a Constituição.
-Alô?
Do outro lado, há sons disformes, não sei bem. Mas nenhuma voz. Insisto:
-Alô?
-Ã.. alô. Oi, boa tarde. Por favor, o Doutor Celso?
A voz era arrastada, preguiçosa, enjoativa. Uma voz feminina, entediada pelo trabalho maçante de todos os dias. Mas o que eu tenho a ver com isso? Ora mocinha, vá a merda. A merda, cacete! Então, você degola minha tranqüilidade, derrubando-me do trono pra terminar toda a revolução a qual fui sujeito nos últimos dois minutos num miserável “desculpe, foi engano?”. Quem você pensa que é, sua maldita inconfidente?
Com o ódio dos traídos, não me contive e desabafei:
-Pois não?
-Boa tarde Dr. Celso. Aqui é Carolina da NONONO (não me lembro o nome da empresa) e gostaríamos de saber se, neste ano, o senhor vai mandar a cesta de café da manhã para a sua esposa.
-Desculpe-me, mas você pode repetir.
-A cesta de café da manhã do aniversário de sua esposa, lembra? O senhor enviou uma no ano passado, lembra?
-Lembro.
-Este ano, temos novidades que, certamente...
-Escuta, que brincadeira é essa?
Houve um silêncio. Insisti, cada vez mais taciturno:
-Por gentileza, quem fala?
-É Clara, senhor.
-Clara, que brincadeira é essa?
-Senhor, não tem brincadeira, eu só...
-Minha mulher morreu.
Silêncio. Este bem maior que o primeiro. Voltei a falar, agora, vingativo:
-Como você ousa brincar com os sentimentos de Doutor Celso Cardoso de Mello Albuquerque Padrão Pinto Neto? Como?
-Com quem?
-Comigo, oras!
Eu não seria capaz de repetir o nome todo e finalizei, indignado:
-Comigo! Logo comigo!
-Desculpe-me doutor Celso, mas o senhor não é Celso Almeida Leoni Filho?
-Não.
Ouvi um longo suspiro que levou consigo o peso de uma terrível fatalidade.
-Desculpe-me, senhor. Foi um engano.
Ela desligou o telefone rapidamente e eu voltei a Constituição. A partir de então, o estudo pareceu render mais.
Nada como quebrar a rotina.
Exaspero-me e em poucos segundos estou em pé, rumo a sala, sem ter confundido o papel higiênico com a Constituição.
-Alô?
Do outro lado, há sons disformes, não sei bem. Mas nenhuma voz. Insisto:
-Alô?
-Ã.. alô. Oi, boa tarde. Por favor, o Doutor Celso?
A voz era arrastada, preguiçosa, enjoativa. Uma voz feminina, entediada pelo trabalho maçante de todos os dias. Mas o que eu tenho a ver com isso? Ora mocinha, vá a merda. A merda, cacete! Então, você degola minha tranqüilidade, derrubando-me do trono pra terminar toda a revolução a qual fui sujeito nos últimos dois minutos num miserável “desculpe, foi engano?”. Quem você pensa que é, sua maldita inconfidente?
Com o ódio dos traídos, não me contive e desabafei:
-Pois não?
-Boa tarde Dr. Celso. Aqui é Carolina da NONONO (não me lembro o nome da empresa) e gostaríamos de saber se, neste ano, o senhor vai mandar a cesta de café da manhã para a sua esposa.
-Desculpe-me, mas você pode repetir.
-A cesta de café da manhã do aniversário de sua esposa, lembra? O senhor enviou uma no ano passado, lembra?
-Lembro.
-Este ano, temos novidades que, certamente...
-Escuta, que brincadeira é essa?
Houve um silêncio. Insisti, cada vez mais taciturno:
-Por gentileza, quem fala?
-É Clara, senhor.
-Clara, que brincadeira é essa?
-Senhor, não tem brincadeira, eu só...
-Minha mulher morreu.
Silêncio. Este bem maior que o primeiro. Voltei a falar, agora, vingativo:
-Como você ousa brincar com os sentimentos de Doutor Celso Cardoso de Mello Albuquerque Padrão Pinto Neto? Como?
-Com quem?
-Comigo, oras!
Eu não seria capaz de repetir o nome todo e finalizei, indignado:
-Comigo! Logo comigo!
-Desculpe-me doutor Celso, mas o senhor não é Celso Almeida Leoni Filho?
-Não.
Ouvi um longo suspiro que levou consigo o peso de uma terrível fatalidade.
-Desculpe-me, senhor. Foi um engano.
Ela desligou o telefone rapidamente e eu voltei a Constituição. A partir de então, o estudo pareceu render mais.
Nada como quebrar a rotina.

3 Comments:
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